Em memória de quem não nos esqueceu


* Santiago Kovadloff

 
 


De Amós a Ezequiel, de Isaias a Jeremias, a convocatória profética na tradição judaica sempre foi um chamado a viver no marco da lei. A lei, ensinam os profetas, exige combater a corrupção, considerar o próximo, conceber como próprios os ideais dos que aspiram a conviver com equidade e respeito recíproco. A lei, ensinam os profetas, exige enfrentar o delito, afastar-se da devassidão que implica a riqueza mal havida. A lei, tal como a entenderam os profetas, concebe a política como indeclinável exercício de responsabilidade cívica e o poder, como um atributo sujeito à lei. A lei lembra sem cessar, na boca dos profetas, que ela só existe se não se converte em um recurso à disposição das ambições sem limite dos que governam.


Alberto Nisman soube ser fiel a essa tradição várias vezes milenar. E, nessa medida, às melhores expectativas da sociedade argentina, uma sociedade flagelada pelo encobrimento e distorção do que se deveria saber, encobrimento e distorção que não são outra coisa que um ato de traição à ética. Porque a ética, entendida como vontade civilizadora, não é senão a configuração social da verdade.


Quem cumpre com a ética, cumpre com a lei. E cumpre muito mais com a lei se põe seu empenho a serviço da justiça.


Assim procedeu Alberto Nisman. Jogou a vida - e pagou com ela - para impedir, na medida de suas forças, que o crime levasse adiante, sem custo algum, a verdade, a ética e a República.


Alberto Nisman morreu na tentativa de lançar luz sobre a escuridão. Sua morte atroz iluminou a densidade dessa escuridão. Uma escuridão que cai sobre nós desde há muito.


Com seu trágico desaparecimento, o atentado contra a AMIA, quer dizer, contra a nação argentina no corpo dessa instituição judaica, cobrou mais uma vítima. Hoje, seus familiares e nós nos unimos como devedores a todos aqueles que já nos representavam e que passaram a ser os semblantes da dor e do reclamo de justiça, em nome dos compatriotas assassinados em 18 de julho de 1994.


Aqui estão, diante de nós, as filhas do promotor que perdemos. Aqui estão, junto a nós, estas meninas para as quais não há consolo porque lhes arrebataram seu pai com um balaço. São órfãs semeadas pela barbárie que hoje como ontem contamina a Argentina com seu alento criminoso e sua pavorosa liberdade de ação.


Que ninguém tente oferecer-lhes o consolo que não podem encontrar. Tenhamos a lucidez e a humildade de saber qual é o limite das palavras. Tenhamos tão-só a hombridade de bem necessária para desejar-lhes de coração que, quando crescerem e forem adultas como nós, não se vejam obrigadas a somar, à orfandade que agora lhes impõem o terror e a impunidade do terror, a orfandade que neste momento nos abruma como cidadãos. Que elas não se vejam obrigadas como nós a viver no desamparo que nos impõe um Estado doente de corrupção e cujos promotores se riem na cara dos argentinos sedentos de verdade.


Esses argentinos não são só os familiares de tantos mortos. Somos todos nós, espectros e não mais que espectros do que deveríamos ser. Porque onde a justiça não impera, tampouco impera a vida em sua significação espiritual mais alta.


A República volta a estar de luto com este assassinato. Somos milhões os argentinos persuadidos de que a morte de Alberto Nisman abre uma interrogação estarrecedora sobre o valor de nossas próprias vidas. Milhões, os argentinos convencidos de que Alberto Nisman só descansará em paz no dia em que seja possível viver em paz em nosso país.


A justiça não poderá devolver a vida ao promotor Alberto Nisman. Porém, poderá nos devolver a dignidade a todos os argentinos se se atreve, como ele se atreveu, a ir em busca da verdade.


* O filósofo Santiago Kovadloff foi um dos oradores da cerimônia religiosa levada adiante pelo Rabino Marcelo Polakoff no cemitério de La Tablada, ao meio-dia do dia 29, para despedir o Promotor Federal da Nação, Alberto Nisman.


Tradução: Graça Salgueiro


 
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