VW XVI - AUTOLATINA
 

 

VW XVI - AUTOLATINA

Jacy de Souza Mendonça 



Estava despachando no gabinete de Sauer quando fui informado por ele de que a Diretoria das matrizes Volkswagen e Ford haviam se decidido pela fusão das filiais brasileiras. Motivo, o prejuízo sistemático que acumulavam no Brasil, sem perspectiva de recuperação, por razões políticas. A alternativa era essa ou o fechamento, pois as matrizes não pretendiam investir mais aqui. O choque, para mim, não foi pequeno, depois de 20 anos de dedicação à empresa, mas não tinha sequer o direito de opinar a respeito. A dor foi também muito profunda entre todo o pessoal de coração VW. Lembro-me de um alemão, dos primeiros que vieram para cá, chorando enquanto o símbolo VW era retirado do alto da fábrica.

Em seguida, começaram os primeiros passos da fusão. Entre as primeiras decisões, fui removido da Diretoria Jurídica (que ficou com a Ford), para assumir exclusivamente a Diretoria de RH, com a missão inicial de montar o novo quadro de executivos.

Foi decidido que a sede da Autolatina seria no prédio onde funcionava a administração da Ford, no Jabaquara, em São Paulo, que a língua oficial na empresa passava a ser a inglesa e as normas internas seriam as da Ford.

Fui o segundo homem VW a ir para o novo prédio (imediatamente depois de Sauer). Todos lá me miravam de maneira estranha. Levado ao escritório do Diretor de RH Ford, sofri o primeiro impacto. Ao cumprimentá-lo, levantou-se dizendo: "essa cadeira é sua" e não houve argumento que o convencesse a permanecer ali sentado para conversarmos. Pouco depois retirou-se e nunca mais o vi. Mas o grande impacto viria em seguida, quando três funcionários Ford (um de cada vez) vieram a mim para cumprimentar-me e todos afirmaram que ambicionavam o meu lugar... atitude que, na VW, seria absolutamente impensável.

Montado o organograma da empresa, minha próxima tarefa consistiu em propor à Diretoria os nomes para preenchê-lo. Em tese, para cada vaga, havia, no mínimo, dois candidatos - um da VW e outro da Ford. Aí encontrei o primeiro e intransponível paredão cultural: na VW, prevalecia o critério da especialização, enquanto na Ford era a generalização - um executivo VW orgulhava-se de ser o melhor funcionário do mundo naquilo que fazia (era um grande especialista) e, por isso, exibia com orgulho o número de anos em que se encontrava no cargo. Um executivo Ford orgulhava-se do número de setores que havia ocupado na empresa (a job rotation). Essa diferença era tal que um Diretor ex-Ford disse-me sem nenhum constrangimento que não entendia como eu, sem ter sido Gerente dos Departamentos de RH, podia ser seu Diretor... o que obrigou-me a responder-lhe que jamais ouvira dizer que, para ser maestro de uma orquestra, fosse necessário tocar antes todos os seus instrumentos...

Mas essa essencial diferença cultural fez com que cada convite a um ex-funcionário VW para ocupar um cargo na nova empresa resultasse em conflito: "o senhor quer que eu, o maior especialista na função x, deixe meu posto para cuidar de y, do qual nada entendo?" - Exatamente ao contrário, à cada notícia de vaga candidatavam-se a ela inúmeros ex-funcionários Ford. Busquei ajuda contratando o professor de uma Universidade francesa especializado em fusão cultural de empresas. Fez entrevistas individuais, proferiu palestras, escreveu recomendações, tudo com o escopo de chegar à aceitação das novas condições pelo pessoal. Ao final de meses de trabalho, disse-me em particular que não conhecia nenhum exemplo assemelhado no mundo que tivesse dado certo. O resultado mais indesejável dessa situação foi, porém, que os executivos VW, descontentes, foram deixando a empresa e a maioria dos cargos foi ocupada pelo pessoal Ford.

Em uma ida à Alemanha, fui instado a expor como andava a formação da nova empresa. Como eles se encontrassem na euforia de um sucesso futebolístico, propus que analisassem a situação como um jogo de futebol. Meu time entrava em campo com um só jogador e já encontrava os onze adversários no campo, que era deles (a ex-sede Ford), sob as regras deles (as normas de trabalho VW foram substituídas pelas normas Ford). O juiz era deles (o Diretor Executivo). A bola era deles (a língua inglesa)  e todos os torcedores também... isso era a AUTOLATINA. Essa era a situação do pessoal de camisa VW na nova empresa.

De repente, fui mandado para uma Universidade nos Estados Unidos, para aperfeiçoar meu inglês, pois passara vinte anos estudando apenas alemão. Conhecedor das técnicas norte-americanas de administração de pessoal, entendi logo que entrava no processo de esfriamento, para ser dispensado. Como nada podia fazer, aguardei os acontecimentos. De fato, passado o primeiro mês, fui informado por telefone de que o meu substituto havia sido confirmado no cargo e passava a ser meu sucessor eu, como tinha sido eleito presidente da ANFAVEA, na volta, cuidaria apenas, com dedicação exclusiva, dos interesses dessa entidade.

Certa feita, em Viena, brindando em um encontro social, o Presidente mundial da VW lançou-me o repto de escrever um livro sobre a fusão que, no seu entender, seria o best seller dele. Não reagi. Continuei cumprindo minhas funções e só hoje, depois de décadas, encontro ânimo para expor meu pensamento sobre o assunto.

Na volta dos EUA, transferi meu escritório para a sede da ANFAVEA e, terminado meu mandato, fui dispensado, não sem algum sofrimento.

Não se diga, porém, que a decisão das matrizes tenha sido equivocada. As duas filiais sobreviveram às loucuras econômicas da política brasileira e ainda acumularam bons resultados. Como eram, entretanto, competidoras no resto do mundo, uma união somente aqui impunha limites intransponíveis. Como iria uma delas informar a outra sobre assuntos estratégicos empresariais? Por isso, depois de sete anos, tornou-se imperioso o desquite. Nesse momento, a equipe Ford continuava íntegra e a equipe VW tinha desaparecido. Eu mesmo, já aposentado, fui contratado como terceiro para auxiliar o lado VW no processo de separação e para recriar seu setor jurídico, que não existia mais. O desquite não foi fácil, mas consumou-se. Mais difícil foi a partilha dos bens, mas precisou ser aceita. Esgotada essa tarefa como terceiro, minha vinculação à VW foi encerrada e hoje tenho até dificuldade para entrar na fábrica.

Agora, quando a matriz da Ford anuncia a saída do Brasil, voltei a pensar no drama daquela época.