VERGONHA: CHEFE DO COMITÊ DA CRUZ VERMELHA EM BOGOTÁ NEGA AJUDA AOS VENEZUELANOS
 

 
Que vergonha o que você fez, Christoph Harnisch!


Eduardo Mackenzie


27/02/2019


O chefe do escritório do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICR - em sua sigla em espanhol) em Bogotá, Christoph Harnisch, 60 anos, traiu os critérios e estatutos dessa organização ao rechaçar prestar sua ajuda na operação humanitária para a Venezuela que ia ser realizada em 23 de fevereiro passado. Hoje ele não sabe como sair dessa confusão moral e diplomática.


A revista Semana trata de ajudá-lo publicando suas explicações, mas ele se afunda mais e mais. Na entrevista que concedeu ontem a essa publicação bogotana, ele recita mais ou menos o que dizem em Caracas sobre os alimentos e remédios que iam entrar na Venezuela desde Cúcuta (e que os esbirros de Maduro terminaram queimando): que não era ajuda humanitária, que empregar esse adjetivo é, segundo ele, "manipular" as pessoas.


O chefe da delegação do CICR na Colômbia violou o princípio de neutralidade ao aduzir que, para ele, era impossível participar dessa operação pois ela vinha de "um dos lados que disputam o poder" na Venezuela e que, sobretudo, vinha dos Estados Unidos, país que "quer ver Maduro cair", o qual, seguramente para Harnisch, é uma coisa muito má. Com esse critério desviado e politizado ele também dissuadiu outro organismo similar, a Cruz Vermelha Colombiana, de que colaborasse com a ajuda humanitária para a Venezuela.


Christoph Harnisch chega ao extremo do irracionalismo ao dizer que tratar de lutar contra a fome e a crise sanitária de um país como a Venezuela, onde as pessoas mais pobres devem escarafunchar nas caçambas de lixo para poder se alimentar, não é realizar um ato humanitário senão fazer política. Claro, quem lê essas explicações pode pensar que o homem está ou simula estar confundido. Na realidade, ele sabe muito bem o que diz e o que faz.


Harnisch, que trabalhou com o CICR em Gaza, Bagdá, Manágua e Tel Aviv, nega que o objetivo do de Cúcuta era total e exclusivamente humanitário. Como chegou a essa conclusão se nem sequer se entrevistou com os organizadores?


Sua posição é uma patética negação dos ideais humanitários. O ideal humanitário não inventa pretextos para escamotear a realização de uma ação humanitária. O ator humanitário age com determinação, realiza o ato humanitário, pensando só no objetivo: ajudar a quem necessita desse ato humanitário. "Independência significa que só as necessidades nos guiam", declara a página web do CICR. Harnisch afastou-se disso. Ele nos diz que sua técnica é diferente. Põe primeiro suas condições. Ele não olha no que consiste a ajuda senão quem e de onde vem a ajuda. Sua visão do ato humanitário é politizada, não é humanitária.


Ele se toma abusivamente umas atribuições extremas. O básico para o senhor Harnisch é pensar em termos de quem e de onde vem a ajuda humanitária. Isso também viola o princípio de imparcialidade que deve ter toda ação humanitária. Se a ajuda não vem da pessoa ou da entidade que ele escolheu ou considera como de boa origem, ele a rechaça, sofra quem sofra. Se não lhe agrada o país ou a entidade que oferece a ajuda humanitária, não participa da realização dessa ação humanitária. "Imparcialidade significa que todos podem receber assistência médica", proclama a página web do CICR. Christoph Harnisch esqueceu esse grande princípio? Quem necessitava dessa ajuda e não a recebeu porque não estava no lado bom que se console: lhe restam ao menos os olhos para chorar.


O essencial da atitude humanitária não é saber quem realiza o ato, mas em quê consiste o ato humanitário. Se é um ato humanitário genuíno ele deve ser aceito, venha de onde venha. Perguntar-se primeiro de onde vem a ajuda é aceitar um critério político ou diplomático, e escolher segundo um critério abusivo e desumanizado.


Harnisch invoca outra falácia: diz que não ajudou no caso da Venezuela pois não sabia em quê mãos iam cair esses medicamentos e esses alimentos. "Isto realmente vai para os mais necessitados?", perguntou-se ante Semana. No fundo, ele desconfia e essa desconfiança política o levou à inação humanitária, pois ele não tinha as garantias de que os agentes do governo venezuelano receberiam essa ajuda. Harnisch sugere que se ele houvesse tido essa garantia oficial, quer dizer, a garantia de uma ditadura atroz que mata seu povo de fome, certamente teria participado dessa operação.


O funcionário do CICR se comportou nessa conjuntura (não conheço suas atuações anteriores, coisa que valeria a pena examinar) menos como o agente diretor de um organismo humanitário independente, como deve ser o CICR, senão antes como um funcionário de Nicolás Maduro. Para onde vai o CICR? que feio é o que você fez, Christoph Harnisch!


Tradução: Graça Salgueiro