AMEAÇA RUSSA NA VENEZUELA
 

 
Bombardeiros russos ao lado da Colômbia


Eduardo Mackenzie


As declarações de Guillermo Botero, ministro colombiano da Defesa, sobre a chegada à Venezuela de dois bombardeiros estratégicos russos, para fazer "manobras" nesse país, deixam muito a desejar. Fazem pensar que ele não dá a atenção que esse fato merece. Ele vê nesse ato de Vladimir Putin um gesto rotineiro e sem conseqüências a médio e longo prazo para a segurança da Colômbia e do hemisfério?


"A Colômbia não é um país provocativo e não será provocado", afirmou alegremente o ministro Botero. O que isso quer dizer? Que a Colômbia não fará nada? Botero aduz que as manobras militares "não são novas na Venezuela" e que o exército colombiano sempre atuou com "uma prudência infalível".


Prudência? A única prudência que cabe ante esse passo adicional da Rússia e Venezuela, destinado a desequilibrar ainda mais a relação de força militar frente à Colômbia, é procurar a maneira de fazer frente a esse desequilíbrio com contra-medidas militares e diplomáticas


Foram os porta-vozes russos que anunciaram ontem que haviam posto na Venezuela três aviões de longo alcance: um bombardeiro Tupolev-160, um cargueiro Antonov-124 e um Ilyushin-62, um avião de passageiros. O Tupolev-160 é capaz de lançar bombas atômicas ou carregar, em sua ausência, mais de 40 toneladas de armamento pesado, como mísseis de cruzeiro de longo alcance. O enorme Antonov-124, dotado de uma fuselagem especial, pode transportar até 150 toneladas de carga, como máquinas, equipamentos e tropas. O velho Ilyushin-62 entrou em serviço em 1986 e pode transportar 186 passageiros. Os russos não disseram o que havia nas adegas desses aviões.


Entretanto, nada indica que o governo colombiano queira se aborrecer ante tais quinquilharias.


É óbvio que Putin enviou esses bombardeiros e algumas tropas não quantificadas, não só para ajudar seu amigo Maduro, cuja duvidosa legitimidade terminará em 10 de janeiro próximo, mas para demonstrar que a Rússia adquiriu uma nova capacidade para incursionar militarmente no norte da América Latina. Não é demais lembrar que os investimentos russos nos setores petroleiro e mineiro na Venezuela, país asfixiado por uma terrível crise econômica, só ascendem a seis bilhões de dólares.


Agora falta saber se as "manobras militares conjuntas entre Venezuela e Rússia" incluem uma nova violação do espaço aéreo colombiano, como ocorreu, com outro avião Tupolev-160, em novembro de 2013.


A resposta de Bogotá ente tais incursões bélicas poderia ser mais ativa: poderia reabrir, pelo menos, o processo das relações da Colômbia com a OTAN e re-atualizar as negociações com os Estados Unidos para reforçar a presença militar americana nas bases aéreas colombianas.


As aproximações que houveram durante o governo de Álvaro Uribe entre a Colômbia e a OTAN, e a agenda para modernizar com ajuda americana as bases da Força Aérea da Colômbia, foram dois temas que Bogotá abandonou quando o ditador venezuelano Hugo Chávez ordenou a Juan Manuel Santos cancelar esses projetos. Muito submisso, Santos acatou o pedido de Chávez e este o apoiou durante as negociações com as FARC em Havana.


A "prudência infalível" é uma fórmula bonita do ministro Botero, mas indica que, nos fatos, a Colômbia deixa Caracas fazer o que quer e sequer se lhe ocorre dizer à Rússia que a chegada de seus bombardeiros ao país vizinho constitui uma ameaça à segurança nacional colombiana.


Quando os Estados Unidos e a OTAN levam tropas e equipamentos à Polônia e aos países bálticos para protegê-los das ambições russas, o Kremlin protesta. A Colômbia tem relações diplomáticas e comerciais com Moscou. Faria bem se fizesse o Kremlin saber, nos termos mais diplomáticos possíveis, que deve respeitar essas relações e que a chegada de tropas e sofisticadas armas russas à Venezuela não contribui para isso. É o mínimo que Bogotá deve fazer. Fez? Pensa fazer?


Devem estar acreditando no que dizem os russos que aterrissaram em Maiquetía: "nosso objetivo é a paz". Essa canção já ouvimos antes. A URSS não a empregou quando enviou suas tropas para invadir a Hungria em 1956? Não disseram o mesmo quando invadiram o Afeganistão em 1979?


Como o ditador Nicolás Maduro repete que os Estados Unidos "iniciaram a implementação de um plano para derrocá-lo com a ajuda da Colômbia", a chegada das tropas russas à Venezuela é uma resposta russa a isso. Exageramos se vemos uma intimidação contra a Colômbia e os Estados Unidos?


A Colômbia nega que tenha a intenção de derrocar pela força o detestável regime de Nicolás Maduro, porém congelou suas relações com a Venezuela desde meados de 2017. A irrupção de russos e de iranianos na Venezuela para sustentar Maduro deveria abrir um pouco mais os olhos do ministro Guillermo Botero e do presidente Iván Duque.


Tradução: Graça Salgueiro