13 DE DEZEMBRO - DIA DO MARINHEIRO
 

 

DIA DO MARINHEIRO  



A vida do Almirante Joaquim Marques Lisboa, Marquês de Tamandaré, é daquelas que, em outros países, teria rendido vasta produção de livros e filmes, tanto com base factual quanto de ficção inspirada na realidade. Na Marinha desde os 16 anos no surgimento da Marinha Imperial e do próprio Brasil independente, combateu Marinhas estrangeiras, piratas, rebeliões internas, no mar e em terra, impulsionou o desenvolvimento naval, salvou pessoas e navios, foi em vida homenageado, condecorado, feito nobre, galgando todos os postos e várias posições em mais de 65 anos em sua "dileta carreira", como a ela se referiu em seu testamento, sempre com brilhantismo.



Só que no Brasil Tamandaré não é um personagem popular como poderia e deveria ser, mesmo sendo desde 1925 o Patrono da Marinha, e seu natalício, 13 de dezembro, o Dia do Marinheiro.  



Joaquim Marques Lisboa nasceu na cidade de Rio Grande, na ponta do Rio Grande do Sul, em 1807. Seu pai, Francisco Marques Lisboa, era Patrão-Mor do porto. Ao acompanhar as lides do pai o jovem Joaquim afeiçoou-se ao mar e à marinharia. Com a Independência alistou-se na recém-criada Marinha Imperial, embarcado na Fragata Niterói, sob o comando de John Taylor. Nela, Tamandaré participou da Guerra de Independência na Bahia e da perseguição da esquadra portuguesa até o Tejo em 1823. No retorno, matriculou-se na Academia Imperial dos GuardasMarinhas, quando conheceu Francisco Manoel Barroso da Silva, futuro Almirante e Barão do Amazonas. No ano seguinte Tamandaré embarcou na Nau Pedro I sob o Almirante Lord Cochrane para ajudar a combater a Confederação do Equador, em Pernambuco. Em 1825, após passar nos exames do curso que parcialmente completara, reforçado por ampla experiência em ação, Tamandaré foi promovido a Segundo-Tenente.



Fato notável a demonstrar a confiança nele depositada foi ter Tamandaré, com 19 anos, em 1826, recebido seu primeiro comando, a Escuna Constança. 

 



As lutas sucederam-se: de 1826 a 1828, a Guerra da Cisplatina, na qual combateu corsários platinos, salvou tripulantes de um navio brasileiro, foi capturado numa incursão em terra, liderou os prisioneiros a tomar um navio inimigo e escapar, salvou-se de um naufrágio, venceu batalhas.  



No Período Regencial, de 1831 a 1842, combateu as rebeliões Cabanagem, Sabinada e Balaiada, além de participar de eventos da Guerra Farroupilha. No Segundo Império enfrentou a Revolta Praieira, em 1850, sua última participação em lutas internas.  



Subindo na hierarquia Tamandaré comandou Divisões e Esquadras, reorganizou a Marinha, liderou operações navais e anfíbias. Seguiram-se as guerras internacionais contra Oribe e Rosas, Aguirre e o Paraguai, nas quais participou de 1852 a 1866.  



Destaque-se a notável ação em Passo da Pátria, em abril de 1866, na qual Tamandaré, tendo Barroso como seu Chefe de Estado-Maior, planejou e comandou complexa manobra anfíbia, possivelmente a primeira do Brasil, que desembarcou mais de 40.000 militares aliados no Paraguai com total surpresa tática e estratégica.    



Às comissões de combate sucediam-se outras de estudos, comandos em terra e vários períodos para tratamento de saúde, abalada pelo cativeiro na Argentina.



Tamandaré foi em 1848 encarregado de trazer ao Brasil a Corveta a vapor D Afonso. A seu bordo realizou dois famosos salvamentos, dos náufragos do mercante britânico Ocean Monarch e da Nau portuguesa Vasco da Gama. Salvamentos marcaram a vida de Tamandaré como prova de sua coragem física. Em 1840 salvou Barroso de um afogamento no Rio Tocantins. Em 1879, o Imperador D Pedro II caiu ao mar durante uma visita à Marinha. Aos 72 anos Tamandaré, em uniforme de gala, lançou-se para o salvamento.  

 



Tamandaré foi o primeiro Oficial de Marinha a chegar à nobreza. O título veio de um episódio de 1859. Transportando o Imperador em 1859 na Fragata a vapor Amazonas (navio a cujo bordo seu amigo Barroso venceria a Batalha Naval do Riachuelo a 11 de junho de 1865) chegaram à cidade de Tamandaré, em Pernambuco. O Almirante solicitou permissão para recolher os restos mortais de seu irmão Manoel, morto do lado rebelde na Confederação do Equador. O Imperador concordou, ordenou honras militares, e no ano seguinte fez Marques Lisboa o Barão de Tamandaré. As promoções na nobreza seguiram seus sucessos: Visconde em 1865, Conde em 1887 e Marquês em 1888. Chegou ao Supremo Tribunal Militar em 1860 e nele permaneceu até 1891, quando se afastou por problemas de saúde, falecendo a 20 de março de 1897, aos 89 anos.  Pela longa carreira de 59 anos, na qual participou de grandes feitos guerreiros, administrativos e pessoais, a Marinha tem no nascimento de Tamandaré sua data simbólica. Uma vida que deveria fazer parte da mitologia nacional, caso uma cá existisse.  



Hoje Tamandaré inspira uma Marinha formada por diversos Corpos de Oficiais e Praças (Armada, Fuzileiros Navais, Intendentes, Engenheiros, Saúde, Auxiliar) subdivididos em Quadros, além de servidores civis, com tradição no desenvolvimento técnico e científico, que se prepara para uma inédita expansão.  



Exemplos são a criação da 2ª Esquadra e da 2ª Força de Fuzileiros da Esquadra, consolidação do PROSUB (Programa de Desenvolvimento de Submarinos, com estaleiro e base, quatro novos Submarinos convencionais e um de propulsão nuclear), prosseguimento do PROSUPER (Programa de Obtenção de Meios de Superfície, incialmente com cinco navios de escolta, navios anfíbios, de apoio e de pesquisa), proteção da chamada Amazônia Azul (nosso mar territorial e Zona Econômica Exclusiva, com área equivalente à da Amazônia Verde), aquisição de viaturas blindadas, obuseiros, equipamento de guerra eletrônica, de defesa química, biológica e nuclear e diversos outros projetos de modernização e ampliação.   



Os planos e as esperanças de um futuro de constante e regular incorporação à Marinha do Brasil de pessoal bem preparado e bem remunerado e de meios navais, anfíbios e aeronavais devem ser implementados sem hiatos que comprometam os resultados obtidos e sem sofrer com incertezas orçamentárias tendo em vista sua importância para a segurança e o desenvolvimento do Brasil, em comum com o Exército e a Força Aérea.

 

Rafael Moura-Neves MAM BHist - Colaborador da ABORE (Associação Brasileira de Oficiais da Reserva do Exército)



NOTA DO EDITOR: a cidade de Rio Grande de São Pedro, RS, onde nasci, hoje sede do 5º Distrito Naval, deu dois grandes heróis de nossa Marinha. Além do Almirante Tamandaré, o Marinheiro Marcílio Dias. Muito me honram estes ilustres conterrâneos. Mas é lamentável que não hajam memoriais em seus nomes. Apenas uma praça Tamandaré, mas poucos sabem o porquê do nome. Parece que não temos passado. É triste.