MANIPULAÇÃO EXPLÍCITA
 

 
Já se disse que, numa guerra, a primeira baixa é a verdade. Que isto possa se aplicar a jornalistas de esquerda raivosos ou às massas ululantes de idiotas que saem às ruas para chamar Bush de tirano e não fazer nenhuma crítica a Saddam, vá lá. Mas quando alguém revestido do manto de intelectual respeitável - não bobos Marcitos, Veríssimos ou Saders - mas ninguém menos que o Professor Helio Jaguaribe, aí a situação se torna deveras preocupante. Pois nada menos que isto ocorreu em sua crônica A Guerra e a ONU (O Globo, 20/03/2003).

Não sei se devido à ignorância esta crônica é um exemplo típico de desinformatzia do início ao fim. A alternativa seria que fossem mentiras deliberadas. Ambas, num intelectual da estirpe do Professor Jaguaribe, são hipóteses estarrecedoras.

Inicia por dizer que Bush resolveu atacar o Iraque sem autorização da ONU e “independentemente da conduta que viesse a ter Saddam Hussein”. Ora, a ONU emitiu 17 Resoluções para Saddam se desarmar durante 11 anos, sendo a última, a 1441 de novembro de 2002, para efeito imediato, e a conduta de Saddam sempre foi a de desrespeitar todas, e o articulista defende que ainda se deveria esperar “a atitude que viesse a ter”? O que se discutia no Conselho de Segurança era se a ONU iria fazer valer o que havia resolvido ou se iria prorrogar as tais “inspeções” indefinidamente. Foi a ONU que desrespeitou a si mesma, os EUA e a Inglaterra, com o apoio da Espanha e da Bulgária, e hoje de mais de 40 países, apenas cumpriram o que o próprio Conselho determinara.

Passa, a seguir, através de um raciocínio extremamente simplista sobre as decisões de Hitler, a comparar este tirano assassino não a Saddam, mas a Bush “e à pequena e dogmática equipe que o cerca” nos quais, a seu ver “observa-se o mesmo e profundo fundamentalismo primário”. Qual, Sr Jaguaribe, as teorias racistas de Rosenberg? A truculência de Julius Streicher? A obsessão racial de Himmler? Não, o Sr Jaguaribe não explicita, diz apenas que é algo que conduziria “as ‘forças do bem’ a se oporem às ‘do mal’, num confronto que teologicamente teria de terminar com a vitória do ‘bem’”. Eu ao menos nunca ouvi falar que Hitler tomasse a si mesmo como representante do “bem”. A ideologia nazista é a do triunfo da vontade e da força e admite o mal como meio necessário à consecução de seus fins. Quando o Sr Jaguaribe não explicita, deixa ao leitor a impressão que Bush e sua equipe são nazistas, incluindo Powell e Condoleeza. A não ser que o articulista, por um passe de mágica ou contorcionismo pseudo-intelectual consiga provar que membros de uma “raça inferior” possam defender teorias racistas contra si mesmos.

Como se fosse um típico representante da pseudo-intelectualidade predominante entre nós, o que muito me decepciona pois sempre o apreciei, ele usa o falso argumento onisciente de que “não poderá escapar a ninguém” que todos os argumentos anglo-americanos são falsos, pois só interessa a deliberação do governo Bush de impor, mundialmente, o unilateral monitoramento dos Estados Unidos, porque estes são uma incontrastável superpotência e, moralmente, o centro do ‘bem’”. Não poderá escapar a ninguém, por que? Por que o Sr Jaguaribe não quer?

Falando dos resultados que antevê, e que provavelmente também “não poderão escapar a ninguém”, chama o Iraque de um país pobre mas escamoteia, e aqui não tenho dúvida de que deliberadamente, que o País que tem as segundas reservas mundiais de petróleo e é um grande produtor só pode ser pobre porque explorado por uma minoria ladra e corrupta que enriquece a olhos vistos, Saddam, sua família e sua tribo sunita de Tikrit. Continua dizendo que “o pós-guerra se caracterizará, ademais, pelo dilaceramento interno entre curdos, sunitas e xi’itas”! É de pasmar que “escape” ao articulista que isto já acontece e só não aparece porque a minoria sunita esmaga cruelmente, inclusive com armas químicas, a minoria curda do norte e a maioria xi’ita do sul.

Ataca, a seguir, o projeto de democratização do Iraque, dizendo que “democratizar uma sociedade islâmica requer, previamente, a conversão do islamismo de um sistema globalizante em uma religião subjetiva” e cita o exemplo de Mustafá Kemal na Turquia mas sem dizer que o Ataturk fez isto ditatorialmente e até hoje o Exército turco é o avalista de que nenhuma tendência fundamentalista exerça o poder por lá, bem como na Argélia onde os militares anularam uma eleição em que os fundamentalistas ganharam. Ao acusar Bush de não saber o que faz quando pensa “que o dirigente de uma ocupação militar americana (...) possa instituir um regime democrático que não seja uma simples farsa, durante o período de ocupação”, revela que “escapou” a ele o ocorrido no Japão. Foi o regime de ocupação, comandado por MacArthur, que obrigou o Imperador a renunciar ao mito da sua ascendência divina e ao da superioridade da casta guerreira dos Samurais. E mais de quarenta anos depois o Japão continua um exemplo de democracia representativa sem abrir mão de seus costumes e tradições. De certa forma, o mesmo ocorreu na Alemanha e na Itália. Mas tudo isto “escapa” ao Professor.

Refere-se então ao “mais grave de tudo”, uma suposta “violação da ordem internacional”. Que ordem internacional vinha sendo respeitada e foi quebrada pelos EUA? Aquela sob a qual a França invadiu a Argélia em meados dos anos 50, sem consultar a ONU? Ou sob a qual a China invadiu o Tibet em 1959, de onde não saiu até hoje, sem a permissão do ONU? Ou aquela sob a qual a Rússia invadiu e ainda massacra a Chechênia? Marcelo Moura Coelho pergunta, e eu faço coro: “se esses países entraram em guerra sem a permissão expressa da ONU, por que exigem que os americanos precisem de uma para guerrear?”

Mas o Sr Jaguaribe mostra qual é na verdade a tal “ordem internacional”: opor a ONU aos EUA. Na Onu segundo ele estariam “as grandes (sic) potências da Europa Ocidental, (...) mais a Rússia e a China”. Quais “grandes potências”? Alemanha e França? Não passam de potências de segunda classe que tem enormes interesses comerciais no Iraque e temem perde-los. A Rússia vem vendendo armas ao Iraque, também à revelia do embargo da ONU, nos últimos 11 anos e a China é uma cruel ditadura comunista.

O panorama finalmente fica claro com a defesa intransigente da importância e relevância da ONU “como o único centro de legitimidade internacional” que deve “convocar o povo americano, com seus valores profundamente democráticos” contra seu Governo legitimamente constituído, isto é, estimular a quinta coluna!

O Professor Jaguaribe bem que poderia ter passado sem esta!
 

 
MSM 26 de março de 2003