WINSTON X WINSTON: COMO SE DETURPA A HISTÓRIA
 

 
É bem conhecida a prática dos regimes totalitários de constantemente reescreverem a História. Foi com base nesta observação na Rússia Comunista que George Orwell moldou o personagem Winston, do Ministério da Verdade, uma fina ironia com o prenome de Churchill, que há pouco havia previsto a Cortina de Ferro. Mesmo após a derrota ou o desmanche desses regimes, seus incorrigíveis ideólogos continuam, de tempos em tempos, fazendo o mesmo retroativamente para justificar ou "dourar a pílula" do inferno que defendem. As tentativas marxistas têm sido sobejamente denunciadas. Mas os nazistas também fazem das suas. Além das absurdas teorias que negam o Holocausto do povo Judeu, tentam denegrir seus mais ferozes opositores.

Nem Orwell poderia prever que, ironicamente, um destes personagens à la Winston iria tentar inverter a História para atacar o Winston original. Pois no último dia 18 de novembro o tablóide Der Bild, o jornal de maior circulação na Alemanha, afirmou com todas as letras que Winston Churchill foi efetivamente um criminoso de guerra que teria aprovado o extermínio da população civil da Alemanha através de bombardeios indiscriminados de cidades e vilas. O jornal apresentará em série o livro Der Brand (O Fogo: Alemanha sob Bombardeio, 1940-1945) do historiador Jorg Friedrich, que se intitula a maior autoridade sobre o tema.

Uma peça falsa para o quebra-cabeça revisionista

Negando completamente o fato de que foram a Alemanha e seus aliados que deflagraram a guerra e que os bombardeios de terror sobre a Inglaterra começaram muito antes, quando a mesma estava quase indefesa depois da retirada de Dunquerque, Friedrich afirma que Churchill já planejara os ataques à população civil 20 anos antes de Hitler ter desencadeado os bombardeios sobre Londres e a destruição de Coventry, Varsóvia e Rotterdam. Afirma ainda que a morte de civis alemães não foi apenas um "dano colateral", mas o verdadeiro objetivo dos bombardeios.

Friedrich cita Churchill defendendo, durante a Primeira Guerra Mundial, o bombardeamento de civis como "somente uma questão de modismo, tal qual a altura dos vestidos das mulheres". É difícil que isto não tivesse vindo à tona até agora, sabendo-se o quanto historiadores marxistas britânicos estariam interessados em descobrir qualquer coisa contra Churchill. O que se tem notícia é que os bombardeios noturnos, que mais danos civis causaram, foram propostos por Sir Richard Harris, Comandante do Comando de Bombardeios da RAF, para destruir a capacidade industrial da Alemanha, já que os ataques diurnos que hoje se chamariam "cirúrgicos" se mostraram ineficientes com a tecnologia disponível na época.

A publicação do livro certamente fornecerá argumentos para a direita radical alemã em seus propósitos revisionistas, e cairá como uma luva na crença de alguns alemães - e estrangeiros também, até entre nós - de que eles foram as verdadeiras vítimas da guerra. Justo no momento em que existem tentativas de reconciliação entre Alemanha e Inglaterra sobre o ataque a Dresden em Fevereiro de 1945, em que morreram dezenas de milhares, com a guerra já quase terminada. Há evidências de um ataque vingativo pelos estragos causados pelas bombas V-2 neste caso? Há sim, mas não se pode debitar o resto dos ataques na mesma conta.

É improvável que historiadores marxistas britânicos venham em socorro de Churchill, o homem que salvou o seu País e talvez suas próprias vidas, porque há todo o interesse em denegrir os mais importantes vultos da Inglaterra, principalmente o velho guerreiro, que anteviu o desastre do comunismo muito antes de ele ocorrer. Principalmente agora que a Inglaterra é o mais firme aliado dos EUA - seguindo a tradição da Segunda Guerra - na luta contra o terrorismo internacional. Pelo contrário, podemos prever uma série de Winstons orwellianos a cavar "provas" das atrocidades do original. Aqui no Brasil, então, isto nem será assunto da mídia - que não está nada interessada em verdades dolorosas.




(Baseado em reportagem de Kate Connolly, correspondente em Berlim do Daily Telegraph).
 

 
Midia sem Máscara em 12 de agosto de 2002