O PAPA FRANCISCO E SUA VISÃO DA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO
 

 
Bergoglio, revolucionário a seu modo



Sandro Magister



Os teólogos da libertação o elogiam, porém, entre ele e eles há um abismo. Os progressistas o contam entre suas fileiras, mas ele mantém-se afastado. O verdadeiro Francisco é muito diferente do que alguns imaginam



Roma, 16 de maio de 2013 - Em perdurável lua de mel com a opinião pública, o Papa Francisco também ganhou o elogio do mais combativo dos teólogos franciscanos, o brasileiro Leonardo Boff: “Francisco dará uma lição à Igreja. Saímos de um inverno rígido e tenebroso. Com ele vem a primavera”.



Na realidade, Boff abandonou há tempo o hábito franciscano, casou-se e substituiu o amor por Marx pelo amor ecologista pela mãe terra e o irmão sol. Porém, é ainda o mais famoso e o mais citado dos teólogos da libertação.



Quando há somente três dias de sua elevação ao papado Jorge Mario Bergoglio invocou “uma Igreja pobre e para os pobres”, parecia uma coisa feita à sua anexação às fileiras dos revolucionários. Na realidade, há um abismo entre a visão dos teólogos latino-americanos da libertação e a visão deste Papa argentino.



Bergoglio não é um prolífico autor de livros, mas o que deixou por escrito é suficiente e permite entender o que tem em mente com seu insistente misturar-se com o “povo”. Ele conhece bem a teologia da libertação, a viu nascer e crescer também entre seus irmãos jesuítas, porém sempre marcou seu desacordo com ela, inclusive ao preço de se encontrar isolado.



Seus teólogos de referência não eram Boff, nem Gutiérrez nem Sobrino, senão o argentino Juan Carlos Scannone [1], também jesuíta e detestado, que havia sido seu professor de grego e que havia elaborado uma teologia, não da libertação senão “do povo”, fundamentada sobre a cultura e a religiosidade da gente comum, em primeiro lugar dos pobres, com sua espiritualidade tradicional e sua sensibilidade pela justiça.



Hoje, com 81 anos de idade, Scannone é considerado o máximo teólogo argentino vivo, enquanto que sobre o que resta da teologia da libertação já em 2005 Bergoglio concluiu seu discurso deste modo: “Com a derrubada do império totalitário do ‘socialismo real’, essas correntes ficaram afundadas no desconcerto, incapazes de um restabelecimento radical e de uma nova criatividade. Sobreviventes por inércias, embora haja ainda hoje quem as proponham anacronicamente”.



Bergoglio deslizou esta sentença condenatória contra a teologia da libertação em um de seus escritos mais reveladores: o prólogo de um livro sobre o futuro da América Latina, o qual tem como autor seu amigo mais íntimo na cúria vaticana, o uruguaio Guzmán Carriquiry Lecour [2], secretário-geral da Pontifícia Comissão para a América Latina, casado, com filhos e netos, o laico de mais alto grau na cúria.



No julgamento de Bergoglio, o continente latino-americano já conquistou um posto de “classe média” na ordem mundial, e está destinado a se impor ainda mais em futuros cenários, porém está solapado no que tem de mais próprio: a fé e a “sabedoria católica” de seu povo.



A farsa mais temível ele vê no que chama “progressismo adolescente”, um entusiasmo pelo progresso que na realidade volta-se - diz - contra os povos e as nações, contra sua identidade católica, uma vez que “tem relação com uma concepção da laicidade do Estado que é antes um laicismo militante”.



No domingo passado quebrou o pau na Europa a favor da proteção jurídica do embrião. Em Buenos Aires não se esqueçam de sua tenaz oposição contra as leis a favor do aborto livre e dos casamentos “gays”. Na promoção de leis similares em todo o mundo ele vê a ofensiva de “uma concepção imperial da globalização”, a qual “constitui o totalitarismo mais perigoso da pós-modernidade”.



É uma ofensiva que para Bergoglio leva o sinal do Anti-Cristo, como em uma novela que gosta de citar: “Senhor do mundo”, de Robert H. Benson, anglicano convertido ao catolicismo há um século.



Em suas homilias como Papa, a mais que freqüente referência ao diabo não é um artifício retórico. Para o Papa Francisco, o diabo é mais real do que nunca, é “o príncipe deste mundo” que Jesus derrotou para sempre, mas que ainda tem liberdade para fazer o mal. Em uma homilia de há alguns dias ele formulou uma advertência: “O diálogo é necessário entre nós, para forjar a paz. Porém, com o príncipe deste mundo não se pode dialogar. Jamais!”.



Notas do autor:



[1] Duas entrevistas recentes ao teólogo argentino Juan Carlos Scannone, a primeira em inglês para Zenit: Retired Teacher Remembers Young Jorge Bergoglio (http://www.zenit.org/en/articles/retired-teacher-remembers-young-jorge-bergoglio) e a segunda em italiano para Il Regno: La teologia di Francesco (http://www.ilregno.it/it/rivista_articolo.php?RID=0&CODICE=52516).



A continuidade entre o Papa Francisco e a teologia de Scannone foi posta em relevo também pelo cardeal Camillo Ruini, em uma entrevista - Il mio Papa gesuita - (http://www.ilfoglio.it/soloqui/17969) Il Foglio em 26 de abril:



“Nos anos ’70 ditei cursos monográficos, em Reggio Emilia e em Bolonha, sobre a teologia da libertação, que nessa ocasião estava em moda na Itália. Por isso estudei um pouco também a teologia argentina, por exemplo, a elaborada pelo jesuíta Juan Carlos Scannone, que foi professor de Bergoglio. Já então esta teologia era reconhecida como essencialmente diferente, porque não se baseava na análise marxista da sociedade, senão sobre a religiosidade popular. Assimilar hoje a insistência do Papa Francisco sobre a pobreza e sobre a aproximação com os pobres à teologia da libertação, está totalmente fora de lugar. Trata-se, pelo contrário, simplesmente de fidelidade a Jesus e ao Evangelho.



[2] Guzmán Carriquiry, “Una apuesta por América Latina. Memoria y destino históricos de un continente”, Editorial Sudamericana, Buenos Aires, 2005 (http://www.amazon.com/apuesta-America-Latina-Commitment-Spanish/dp/9500726564/ref=sr_1_1?s=books&ie=UTF8&qid=1367831905&sr=1-1&keywords=Carriquiry).



Tradução: Graça Salgueiro