CARTA DO EMBAIXADOR PANAMENHO EXONERADO
 

 
Carta do ex-embaixador do Panamá ante a OEA ao presidente Ricardo Martinelli, após sua destituição do cargo



“Estimado Senhor Presidente:



Li com muita pena o comunicado que a Chancelaria emitiu em 16 de janeiro, assegurando que o discurso pronunciado por este servidor no Conselho Permanente da OEA no mesmo dia não estava autorizado, e que o mesmo foi improvisado e sem consulta. Digo pena porque não posso pensar que nosso governo se deixe amedrontar pelas críticas e ameaças da Venezuela. Como saberá, foram várias as vezes que reclamei o que digo: frente a frente e sem rodeios.



Desde 17 de dezembro a 10 de janeiro passado estive no Panamá. Um total de 24 dias onde a Chancelaria sabia que eu estava lá. Nunca me pediram que me reunisse com ninguém, mesmo sabendo de meus informes de reuniões mantidas na Polícia Nacional e outros entes públicos. Encontrei-me com o Chanceler em um centro comercial e não aconteceu mais que uma saudação, e o Vice-Chanceler nunca me deu a entrevista que lhe havia solicitado. Não tenho culpa que em meu trabalho na OEA não receba instruções nem diretrizes de nenhuma espécie quase todas as minhas comunicações nem sequer são respondidas. Hoje Juan Carlos Espinoza me telefonou para me transmitir a suposta mensagem do Chanceler - que recebi depois - que, do mesmo modo que uma recebida em junho do ano passado, tem os mesmos termos desajustados e imprudentes da remetida nesse momento pelo Chanceler Henríquez e que não tem assinatura alguma. Minha irada e pontual resposta ao mesmo nunca foi respondida.



Pensei que nestes dias, quando parece que tudo se concentra na busca de um candidato presidencial para o governo, não havia tempo para discutir meu trabalho. Nunca se fez antes, houve uma muito marcada falta de instruções e guias. O recebido ontem devo interpretá-lo como uma intolerável repreensão. Por que fazem agora? Sempre, ante essa falta, sempre atuei de acordo com meu melhor critério democrático e os melhores interesses para meu país e, em muitas ocasiões, consultando-te diretamente a ti.



Minhas posições a favor da democracia em Honduras, Costa Rica, Paraguai, Equador e Venezuela, nos três anos e meio que levo neste cargo, produto da defesa da Carta Democrática Interamericana e os compromissos panamenhos de Direito Internacional foram sempre avalizados por ti, o qual agradeço profundamente. Do mesmo modo me apoiaste reiteradamente quando denunciei a falta de transparência da OEA, chegando o Vice-Ministro Álvarez a me sugerir que ante o que havia descoberto em tal organismo falasse com o Embaixador do Chile, para que pedisse em nome do seu governo a renúncia de Insulza.



Quando aceitei o posto de Embaixador e Representante Permanente ante a OEA, sabias que nomeavas uma pessoa profundamente comprometida com a democracia, beligerante nesse tema, demonstrado em muitos campos de batalha. Sabias de minha preparação no campo internacional e que minha preocupação pelos eventos mundiais são parte de minha formação política. Isso foi uma das caraterísticas de minha vida pública de 49 anos, desde que fui membro da Democracia Cristã e em todos os anos que combati de frente a ditadura militar, os governos liberais de então e a daninha corrupção que existia e existe no país.



Quando se tem valores democráticos estes não se podem trocar por um salário, por mais atraente que seja. Estes valores não têm preço nem são negociáveis, sobretudo por uma pessoa como eu que, sem ter riquezas, só se orgulha dos princípios que defendeu durante toda a sua vida, inclusive sob o perigo de morte, como quando os militares me detiveram três semanas antes do 20 de dezembro de 1989. Isso é a única coisa que legarei à minha esposa, a meus filhos e a meus netos.



O que virá à América o Panamá sofrerá também. É necessário pôr limites a este avanço do novo colonialismo ideológico que se avizinha, alentado pelas profundas diferenças sociais que persistem em nossos povos. Não é segredo que é Cuba quem determina as decisões políticas da Venezuela isso nem o atual ‘governo’ desse país nega. Isso é ingerência ou não nas relações de um país supostamente livre como a Venezuela? É ingerência ou não que o presidente da Nicarágua arremeta contra a oposição venezuelana, ao falar nesse país em 10 de janeiro passado? Será ou não ingerência, quando o assessor da Presidente Dilma Rousseff, Marco Aurélio Garcia, conhecido marxista, assume o papel de interpretar a Constituição da Venezuela?



Esse plano de domínio continental também inclui o Panamá, onde, como te assinalei em mais de uma ocasião, alguns dos que protestavam contra o governo nacional são infiltrados enaltecidos e financiados com fundos externos, cuja origem é amplamente conhecida, situação que tu aceitaste. Todos sabemos de onde vêm porque para esses marxistas de meia tigela, e que eu os chamo de ‘verdes pelo amor que têm ao dólar’, ‘o fim justifica os meios’. Para eles, por mais que queiramos olhar para o outro lado, o governo que presides e do qual formo parte é ‘oligárquico, repressivo e explorador do povo’.



No ocorrido ontem (quarta-feira), apesar da saída de tabela da Chancelaria, minha posição ficou incólume diria que até fortalecida. Fiquei como o Willy Cochez que sempre fui: um democrata a toda prova. Vim à OEA defender seus principais pilares: a democracia e os direitos humanos. Modéstia à parte, creio que honrei esse compromisso e em todos os campos em que atuei na OEA e fora dela, elevei o nome do Panamá. Pouco me importa o que digam os que hoje não poderiam subsistir sem a ajuda do dinheiro que a Venezuela lhes proporciona, apesar de que em seu país há escassez até de papel higiênico. Menos ainda me importa o que diga o Embaixador da Venezuela na OEA, a quem conheço de seus tempos do social-cristão COPEI na Venezuela, onde sua maior frustração consiste em ser detestado por seus antigos companheiros, por ser traidor, e do mesmo modo por seu atual governo, por considerá-lo um carreirista aproveitador. A única coisa que pôde me dizer, de ser um ‘grosseiro e um mal pintor’, foi motivo de mofa pelos despachos internacionais de imprensa.



Presidente, em meus 67 anos não vou mudar de posição. Morrerei do mesmo jeito. Se a política do governo do Panamá será a de apoiar os desacertos e ilegalidades do atual irregular governo da Venezuela e outros governos do continente, não poderás contar comigo. Jamais poderei apoiar na OEA ou em outro foro, que meu país apóie, saberá Deus porquê, o desmando que existe na Venezuela. Por isso te insisto a que assim como me nomeaste te sintas livre para destituir-me, ao considerar-se que já não represento os melhores interesses do país.



Como sempre, teu amigo,



Guillermo A. Cochez”



Tradução: Graça Salgueiro