INTENTONA COMUNISTA
 

 

UM POUCO DE HISTÓRIA SOBRE A INTENTONA COMUNISTA


Carlos Ilich Santos Azambuja 


A verdade é revolucionária” (Trotski) 



A “glasnost” (transparência) de Gorbachev foi importante porque derrubou vários mitos. Um deles era o de que a Intentona Comunista tivesse sido um movimento genuinamente brasileiro, gestado e levado adiante pelo PCB. Não foi. A Intentona Comunista foi deflagrada após decisão e ordem expressa da Internacional Comunista, passada aos agentes do Komintern no Brasil por telegrama. A cópia do original desse telegrama foi publicada por William Waak, que pesquisou os arquivos do Komintern após o desmanche da União Soviética e escreveu o livro “Camaradas”, editado em 1993, dando conta de detalhes inéditos, com base nos documentos a que teve acesso.



O Komintern, do alemão Kommunistiche Internationale, organismo com sede em Moscou, funcionou de 1919 a 1943, dirigido por um Comitê Executivo, o EKKI, do alemão Executivekomite der Kommunistichen Internationale, organismo composto por 50 membros. Na prática, as funções do EKKI eram desempenhadas por um Secretariado. Como um típico artifício da era stalinista, esse Secretariado, por sua vez, dependia do funcionamento de uma Comissão Política, composta por um número variável de 8 a 10 membros.



Todavia, mesmo esse pequeno grupo era julgado grande demais, e o comando efetivo concentrava-se na chamada Uskaia Komissia, a “Pequena Comissão”, que formalmente não existia dentro da estrutura do Komintern. A Uskaia Komissia era a responsável por todas as decisões relativas aos aspectos políticos, de Inteligência e de ligação do Komintern com o Partido Comunista da União Soviética.



No entanto, apesar de tudo isso, o verdadeiro coração do Komintern batia secretíssimo. Era uma instância conhecida pela sigla OMS (Otdel Mezahdunarodnykh Syazey), “Serviços de Ligações Internacionais”, responsável, desde Moscou, por uma vasta rede de agentes, aparelhos e informantes, supervisionando todas as missões desenvolvidas pelo Serviço de Inteligência do Komintern. O OMS não era uma mera instância técnica. Desde a década de 20 financiava e controlava os partidos comunistas de todo o mundo, com verbas fornecidas pelo Estado soviético. Essa prática de financiar os partidos comunistas de todo o mundo permaneceu inalterada por mais de 70 anos, até mesmo durante o governo Gorbachev. Quando o Komintern e o OMS foram desativados em 1943, esses organismos foram substituídos pelo Kominform, ocasião em que o Departamento de Relações Internacionais do PCUS assumiu as tarefas de ambos. Ao final do ano de 1991, quando o PCUS foi tornado ilegal por Boris Yeltsin, foram encontradas na sede do Comitê Central as listas de “ajuda financeira fraternal” que, como não poderia deixar de ser, incluíam o Partido Comunista Brasileiro.


Voltando ao EKKI (Comitê Executivo do Komintern): Luiz Carlos Prestes foi incluído como membro desse organismo em 8 de junho de 1934, antes mesmo de sua filiação ao PCB – fato inédito no comunismo internacional -, o que só viria a acontecer 2 meses depois, em agosto desse ano. Nesse contexto, já em 1935, Luiz Carlos Prestes era um assalariado do Komintern, como comprovou William Waak: US$ 1.714,00, 11,9% das despesas do Komintern com a conspiração, no período de abril a setembro de 1935, representavam o salário de Prestes.


O OGU, do russo Obyedinyonnoy Gosudarstvennoy Upravlenie (“Diretório Estadual Unificado Popular”) mantinha, desde 1921, um departamento próprio de Inteligência no exterior, com assento dentro do OMS: a OGPU, Polícia Política do Estado Soviético, sucessora da CHEKA czarista. Todavia, existia ainda uma terceira organização de Inteligência soviética, que também deslocou agentes para o Brasil em 1935, o IV Departamento do Estado-Maior do Exército Vermelho, instância clássica da espionagem militar, hoje conhecida pela sigla GRU. A esse Departamento pertencia a alemã Olga Benário, que também utilizava os nomes de “Frida Leuschner”, “Ana Baum de Revidor”, “Olga Sinek”, “Olga Bergner Vilar” e “Zarkovich”, casada em Moscou com B. P. Nikitin, aluno da Escola Militar Frunze, designada para cumprir a tarefa de acompanhar Luiz Carlos Prestes em sua volta ao Brasil, em 1935. Olga Benário, registre-se, nunca foi casada com Prestes e, acompanhando-o ao Brasil cumpria missão que lhe fora atribuída pelo IV Departamento, já citado.



Esse clube de revolucionários profissionais – os “homens do Komintern” – tinha poderes praticamente ilimitados de intervenção nos diversos partidos comunistas, bem como instruções muito precisas sobre como levar adiante as planejadas ações revolucionárias. No que diz respeito ao Brasil, o PCB jamais se libertou de sua subserviência ao PC Soviético. O PCUS, até ser posto na ilegalidade, em 1991, sempre manteve sob estreito controle a direção política do PCB, a forma como eram escolhidas as suas lideranças, seus processos de formação ideológica, bem como aquilo que sempre foi mais importante para o partido: o “auxílio fraternal” em dólares. Em 1990, último ano de funcionamento ativo do PCUS, essa “ajuda fraternal” ao Partido Comunista Brasileiro foi de 400 mil dólares, segundo os arquivos do Kremlin, conforme foi divulgado pelo Tribunal Constitucional russo que em 1992 julgou os crimes do PCUS.



Segundo o jornal Konsomolskaya Pravda de 8 de abril de 1992, “somente em 1990 (5 anos depois da implantação da política de Gorbachev, consubstanciada nas palavras “perestroika” e “glasnost”), o Partido Comunista da União Soviética ajudou com mais de US$ 200 milhões os partidos irmãos do mundo, entre os quais a Espanha e Portugal e quase todos da América Latina. Os mais beneficiados foram os partidos comunistas do Chile, que obteve US$ 700 mil, da Argentina, Venezuela e El Salvador, com US$ 450 mil cada um, e os do Brasil e Colômbia, com US$ 400 mil cada um”. Sobre este tema é contundente a entrevista do ex-diplomata da União Soviética no Brasil, Vladimir Novikov, coronel da KGB, que serviu em Brasília sob a fachada de Adido Cultural junto à embaixada soviética nos anos 80: (...) As últimas contribuições de Moscou para o PCB, por ordem do Comitê Central, foram para a campanha de 1989, quando o deputado Roberto Freire foi candidato do partido à Presidência da República” (revista Veja de 12 de julho de 1995).



Em 15 de setembro de 1935, às vésperas, portanto, da Intentona Comunista, o BSA-Bureau Sul-Americano, que funcionava em Buenos Aires, recebeu do EKKI a determinação de passar a dirigir as atividades do PCB conjuntamente com Luiz Carlos Prestes – que, então, não era ainda membro da direção do partido – e “Miranda” (Antonio Maciel Bonfim), Secretário-Geral do PCB. Isso significou, na prática, que o organismo do Komintern para a América Latina, assumia o comando do Partido Comunista Brasileiro. O fundamental em toda essa história é o fato de a polícia brasileira, após a Intentona, ter identificado e detido, apenas nove dos estrangeiros deslocados para o Brasil.peloKomintern. Todavia, o número real de agentes do Komintern então atuantes no Brasil era de 22! Os nomes dos restantes 13 estrangeiros somente em 1993 seriam do conhecimento público, graças ao trabalho de William Waak. Ou seja, William Waak, com o livro Camaradas, reescreveu a História do Brasil.



Os agentes deslocados para o Brasil pelo Komintern, a fim de preparar as “condições objetivas e subjetivas” para a deflagração da Intentona foram os seguintes:


Inês Tulchniska, que também utilizava os nomes de “Inês Gurasky” e “Tanina” alemã dava assistência política ao PCB no início da década de 30. Casada com Abraham Gurasky após a Intentona passou uma temporada em Moscou, sendo desconhecido seu paradeiro posterior


Abraham Gurasky – que também usava os nomes de “Boris Heifetz” e “Rústico” alemão foi chefe do Bureau Sul-Americano em Buenos Aires, no início da década de 30 casado com Inês Tuchsnika em dezembro de 1934 foi deslocado para o Brasil, procedente de Moscou morreu em Moscou em 1960, após haver passado, como prisioneiro, pelos Arquipélagos Gulag


“Pierre”, não identificado enviado ao Brasil em 1930 com a missão de “reformular a direção do PCB”


Arthur Ernst Ewert, que também usava os nomes de “Harry Berger”, “Albert”, “Castro” e “Negro” alemão casado com Elise Saborovsky. No início dos anos 30, desde Montevidéu, ministrava assistência política ao Comitê Central do PCB em 1933 foi deslocado para a China, onde desenvolveu atividades até dezembro de 1934, quando foi mandado de volta ao Brasil. Após a Intentona Comunista dói preso no Rio de Janeiro, sendo libertado em 1945 em decorrência da anistia concedida em abril desse ano pelo presidente Getulio Vargas, viajando para a Alemanha Oriental, onde, em 1959, morreu


ELISE SABOROVSKY, também conhecida pelo apelido de “Sabo” alemã casada com Arthur Ernst Ewert foi presa no Rio de Janeiro após a Intentona Comunista e em 1936 deportada para a Alemanha, juntamente com Olga Benário


JAN JOLLES, que também usava os nomes de “Alonso”, “Emílio”, “Eoles”, “Cazon” e “Macário” alemão deslocado para o Brasil em abril de 1933 anteriormente, militou no Partido Comunista Argentino saiu do Brasil em abril de 1935, para o Equador, via Chile, por incompatibilidade com Rodolpho José Ghioldi permaneceu uma temporada no Chile participando de atos terroristas, vindo a morrer no Equador


BORIS KRAEVSKY, russo atuou no Rio Grande do Sul no início dos anos 30 com a tarefa de dar assistência política à Juventude Comunista do PCB destino ignorado


RODOLPHO JOSÉ GHIOLDI, que também usava os nomes de “Autobelli”, “Luciano Busteros”, “Índio” e “Quiroga” argentino membro do BSA no início da década de 30 foi deslocado para o Brasil em dezembro de 1934 junto com sua mulher Carmen de Alfaya após a Intentona Comunista foi preso e após a II Guerra Mundial deportado para a Argentina, onde morreu em 1985


Carmen de Alfaya – Argentina casada com Rodolpho Jose Ghioldi após a Intentona foi presa e, durante a II Guerra Mundial deportada para a Argentina. Em 1993 vivia na Argentina


Olga Benário, que também usava os nomes de “Frida Leuschner”, “Ana Baum de Revidor”, “Olga Sinek”, “Olga Bergner Vilar” e “Zarkovich” alemã membro do IV Departamento do Exército Vermelho (Inteligência Externa) casada na URSS com B. P. Nikitin viajou ao Brasil, acompanhando Luiz Carlos Prestes, em dezembro de 1934, cumprindo missão que lhe fora atribuída pelo EKKI foi presa no Brasil em 6 de março de 1936, juntamente com Luiz Carlos Prestes, sendo deportada para a Alemanha, onde morreu, em 1942, em um campo de concentração


Johann de Graaf, que também usava os nomes de “Jonny”, “Mattern”, “Franz Gruber”, “Pedro” e “Richard Walter” alemão. Profissão: terrorista (qualificação que lhe fora dada, em Moscou, por seu instrutor no curso de “Trabalhos Especiais”) casado com Helena Kruger foi deslocado para o Brasil em 1935 foi morto em Moscou em 1938, pela NKVD, polícia política do Estado Soviético


Helena Kruger, que também usava os nomes de “Ema Gruber”, “Lena” e “Lee” Alemã casada com Johann de Graef em 1935 foi deslocada para o Brasil junto com seu marido. Teria cometido o suicídio em Buenos Aires em 3 de dezembro de 1936, após receber ordem para voltar a Moscou


Pavel Vladimirovich Stuchevski, que também usava os nomes de “Leon Jules Vallée”,”Paul” e “René” russo casado com Sofia Semionova Stuchskaia ambos eram membros-residentes do Komintern no Brasil, para onde foram deslocados em 1935 ambos chefiavam o único aparelho do Komintern jamais instalado na América Latina. Esse aparelho chegou a utilizar 7 pessoas no Rio de Janeiro, 2 em São Paulo e 2 em Buenos Aires, onde funcionava o BSA. Foi morto em 1938, em Moscou pela NKVD


Sofia Semionova Stuchskaia, que também usava os nomes de “Sofia Semionova Morgulian” e “Alphonsine Vallée russa casada com Pavel Vladimirovich Stuchevski morta em 1938, em Moscou, pela NKVD


Amleto Locatelli, que também usava os nomes de “Adolphe Hala”, “Walter” e “Bruno” italiano deslocado para o Brasil em outubro de 1935 morreu em março de 1937, participando da Guerra Civil na Espanha


“Marga”, alemã, não identificada secretária de Arthur Ernst Ewert


Mendel Mirochevski, que também usava os nomes de “Losovski”, “lovski” e “Juan” polonês deslocado para o Brasil em setembro de 1935 paradeiro desconhecido


Steban Peano, que também usava o nome de “Gras” argentino assistente político do Comitê Regional do PCB em São Paulo a partir de 1934 paradeiro desconhecido


Maria Banejas, que também usava o nome de “Antonia” Argentina companheira do brasileiro Honório de Freitas Guimarães (“Martins”), Secretário de Organização do Comitê Central do PCB paradeiro desconhecido


Victor Allen Baron, que também usava os nomes de “James Martín” e “Raimond” norte-americano especialista em Comunicações morto, após ser preso pela Polícia, em 1935, sendo a morte dada como suicídio


Marcos Youbman, que também usava o nome de “Arias” argentino correio pessoal de Pavel Vladimirovich foi preso no Rio de Janeiro em 1935 e desapareceu


“Carmen”, Argentina, servia de correio pessoal de Pavel Vladimirovich (não era a mulher de Rodolpho Ghioldi) não foi identificada.



Além dos 22 relacionados, Pavel Vladimirovich Stuchevski, que chefiava o aparelho do Komintern no Rio de Janeiro, coordenava as atividades de 7 outros brasileiros de menor projeção dentro da Organização.



Dos estrangeiros acima relacionados, apenas 9 foram presos no Brasil após a Intentona, sendo que os mais importantes (Pavel Vladimirovich Stuchevski e Sofia Semionova Stuchskaia) pois chefiavam o aparelho do Komintern no Brasil, foram imediatamente liberados pela Polícia, por falta de provas, abandonando o Brasil.



Essa parte da História da Intentona ainda não havia sido contada.



 

 

 

O Autor é historiador - Publicado na Revista do Clube Militar, Nov 2001