EDITORIAL NOTICUBA INTERNACIONAL
 

 

EDITORIAL


Em nossa redação de Noticuba Internacional chegaram várias preocupações através dos leitores sobre se Yoanis Sánchez, a blogueira de “Generación Y”, é a representante da Imprensa Independente em Cuba. Esta inquietação surgiu por causa de sua constante participação em eventos internacionais, entrevistas para a televisão em Miami e publicações em quase todos os meios de difusão massiva no exílio e Europa, onde foi agraciada com prêmios de valor e propagandeada como a melhor e mais valente das opositoras que enfrentam Castro.



A redação de Noticuba Internacional deu-se ao trabalho de se comunicar com um bom número de jornalistas independentes na ilha para saber disto e poder dar uma resposta fiel à realidade, sem parcialidades com nada nem ninguém, e com o único objetivo de honrar seus princípios noticiosos que não são outros que ser um meio onde se difunde a verdade e nada mais que a verdade.


Alguns afirmaram que a conheciam de ouvir falar, outros que nem a conheciam porque ela não é membro de nenhum grupo opositor, que somente souberam pela imprensa estrangeira que havia feito um ato de presença no caso do roqueiro Gorki, e sobre as demais participações no estrangeiro. Comentaram-nos, além disso, que vive em Nuevo Vedado em uma confortável residência com telefone e serviço de internet, e que jamais foi objeto de perseguição ou maltrato e muito menos detida, pelo que desconhecem o porquê de sua presença como opositora.



Saber estas coisas nos alarmou e, como opositores e imprensa continuamos indagando a notícia para poder ser fiéis ao que ocorre com esta blogueira, e analisando cada comentário que chega à nossa redação do jornalista Mario de Llano, onde de forma livre expõe seus critérios sobre este caso.


Depois de muita sondagem soubemos que em Cuba ninguém sabe o porquê da fama de Yoanis Sánchez (um mito fabricado como Ingrid Betancourt, acrescento eu), nem o porquê do Prêmio Ortega y Gasset de Jornalismo Digital 2008, nem a viagem à Espanha suspensa pelo governo de Cuba. Muito menos a participação em vídeo na SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa) no dia de ontem.



Achamos ser honesto destacar que o tema da violência contra jornalistas e meios de comunicação durante as crises sociais e os recentes processos eleitorais na América Latina devem ser debatidos por jornalistas independentes cubanos que sejam vítimas desta repressão, inclusive que tenham cumprido condenações, perseguição, repressão e expulsões de seus centros de trabalho, e para os quais informar é o maior dos delitos na ilha e que, ainda assim, continuam na linha de combate sem se deixar vencer.


Isto porém não corresponde com Yoanis Sánchez, pois ela não responde pela imprensa independente cubana, não foi detida, nem perseguida politicamente, nem sequer, como afirma a oposição, pertence a nenhum grupo organizado. Apenas criou um blog em 2007, chamado “Generación Y” com o objetivo, segundo ela, de poder dizer o que sente e para que o mundo conheça [seus pensamentos].



Isso está muito bem, porém não lhe concede o direito de representar uma oposição aguerrida, perseguida, fustigada e reprimida que leva muitos anos lutando sem internet, sem liberdade de expressão e neste momento minimizada. Não é notícia para ninguém que a imprensa independente cubana, fundada em meio a uma sociedade totalitária e repressiva, foi fortemente reprimida pelo governo cubano, inclusive os jornalistas fundadores, e os que atualmente continuam na linha de combate têm que redigir suas notícias em pedaços de papel reciclável, suplicar horas de tempo da máquina de alguma das sedes diplomáticas existentes em Havana, ou na SINA, onde para poder ir têm que burlar a custódia policial da Segurança do Estado.


Consideramos, como jornalistas e por ter conhecimento de causa sobre a realidade da oposição na ilha, que existem repórteres independentes que certamente têm capacidade para poder representar a imprensa perante qualquer tipo de Comissão Internacional e muito mais a Sociedade Interamericana de Imprensa, por seu árduo trabalho, por sua experiência sobre repressões e cativeiro, e onde é honesto destacar: Luis Cino, Lucas Galve, José Fornaris, Hugo Araña, Juan González Febles, Jorge Olivera, Guillermo Fariña e outra boa soma de jornalistas, homens e mulheres, anteriores e posteriores à onda repressiva de 2003, que com valor e inteireza cobriram os postos daqueles que para salvar a vida tivemos que sair para o exílio. E expomos este critério por sermos fiéis defensores dos direitos humanos e termos como fortaleza principal a liberdade de expressão das idéias.



Por isso não é justo calar ante esta situação e muito menos permitir que no Segundo Fórum da Sociedade Interamericana de Imprensa, realizada fora do continente americano, com uma participação flagrante de países assediados pela imposição à livre expressão, se permita participar como exemplo de repressão e como expert sobre jornalismo digital Yoanis Sánchez, única cubana com liberdades para utilizar o serviço de internet sem interrupções.


Não consideramos que Yoanis Sánchez tenha argumentos sólidos e experiência virtual sobre os fatos do maleconaço, nem sequer sofreu na própria carne a repressão e o presídio da onda repressiva de 18 de março de 2003, e muito menos que tipo de coisa é ter que fugir dia e noite da Polícia Política, dos registros massivos, dos mítines de repúdio, das agressões em via pública, da deterioração física e espiritual dos opositores e seus familiares.



O mundo sabe que o malogrado panorama da liberdade de expressão e os obstáculos que o exercício jornalístico encara em países como Cuba, não pode ser exposto por uma pessoa que além de não ser jornalista independente, nem opositora reconhecida, não tenha sido objeto destes desmandos governamentais que relaciono no parágrafo anterior.


A SIP e o mundo sabem que a imprensa independente na ilha, apesar de ter sido boicotada pelos espiões a serviço do regime em março de 2003, onde foram detidos mais de 75 jornalistas independentes e opositores pacíficos, e onde um número grande deles, dentre os quais havia 12 mulheres indiciadas, viram-se obrigados a sair para o exílio com seus filhos para não perderem a vida.



Com todo o respeito que o rei Juan Carlos de Espanha merece, que inaugurou o evento com sua presença oficial, assim como o resto da concorrência diplomática deve conhecer a realidade de Cuba através dos que realmente têm voz e voto neste tema repressivo. Saber que apesar de o atual governante Raúl Castro ter permitido a venda de computadores para o povo, os opositores e jornalistas independentes cubanos não têm impunidade para possuí-los e muito menos para fazer denúncias.


Em primeiro lugar pela repressão e em segundo, porque o serviço de internet não é permitido, somente se consegue Intranet e não a dissidentes, pelo qual nenhum tem conhecimentos e muito menos possibilidades de poder adaptar-se às novas tecnologias, muito menos conhecer o blog Generación Y. Como é possível que se possa falar de redes sociais e blog, ou novas tecnologias profissionais em Cuba, se a imprensa independente e a oposição não têm permissão a esses acessos, pelo que consideramos um ato de mágica que Yoanis possa conseguir esse serviço desde sua casa de forma ininterrupta?



Também nos alarma e necessitamos que alguém nos explique, como foi possível que Yoanis Sánchez conseguisse uma intervenção especial de sua casa em Havana para Madri, quando as linhas telefônicas cada vez que são utilizadas para informar sobre liberdades, denúncias ou participações com o estrangeiro são cortadas, e disto há muitas testemunhas, tanto dentro quanto fora de Cuba. A única negativa que a blogueira recebeu, segundo se informa, foi não lhe permitir ir receber seu prêmio em Madri. Perguntem ao resto da oposição e imprensa independente cubana, tanto fora como dentro do exílio, quantas coisas lhes são e lhes foram negadas, e como transcorre a vida de um dissidente e a de seus familiares.


Quem foi capaz de rotular Yoanis Sánchez como a “blogueira cativa” do regime cubano, afirmando que o mandatário a acusou recentemente de “agente do imperialismo”? Alguém já se perguntou de quantas coisas acusaram os jornalistas independentes e opositores pacíficos presos, ou em suposta liberdade, incluindo os que tiveram que sair do país para salvar suas vidas? Seria bom que se conhecesse que todos foram acusados de: trabalhar para uma potência estrangeira atentar contra a soberania nacional contra-revolucionários atentar contra os órgãos da Segurança do Estado vende-pátrias “gusanos” (vermes) lacraia social e uma quantidade de epítetos da língua espanhola que para expô-los necessitaríamos de várias laudas.



Quem tem mais direito a ser entrevistado: Yoanis Sánchez, que há somente um ano empreendeu – sabe-se lá como – a idéia de criar um espaço para comentar criticamente a realidade cubana e se permitir dizer o que lhe está vedado em seus direitos cívicos, com as comodidades de um serviço de internet 24 por 24 sem interrupções onde somente o exílio lê, ou o grupo de prisioneiros políticos e de consciência que estão morrendo diariamente submetidos às mais cruéis torturas físicas e psicológicas? Ou a imprensa independente e os opositores que buscam a notícia a pé, rua a rua, cidade a cidade, e depois arriscam a vida e a liberdade tratando de transmiti-la para o exílio sem meios sofisticados?


Sobre as declarações de Yoanis Sánchez no debate virtual ao qual participou em Madri, segundo conta a imprensa estrangeira ela se juntou ao debate de forma virtual com uma intervenção gravada em vídeo, onde explicou como a internet conseguiu romper o monopólio da informação em Cuba. Ao mesmo tempo afirma que graças à rede, a qual denomina seu instrumento, conseguiu nos últimos anos burlar a censura oficialista cubana.



Afirma Sánchez: “A internet é muito corrosiva para o monopólio informativo que o Governo cubano possui” ao mesmo tempo que destacou que a rede lhe permitiu superar “a atmosfera de irrealidade” na qual as autoridades cubanas afundaram a população cubana durante 50 anos. Graças à internet, expôs a blogueira, “conhecemos coisas ocorridas ao nosso lado nestes 50 anos, às quais não nos havíamos nos inteirado..., recuperamos passagens da Historia que estiveram veladas pela imprensa oficial”.


Deu como exemplo o “maleconaço” de 1994, as manifestações populares junto ao malecón de Havana, “que nunca divulgaram na televisão cubana”, e ficou feliz pela oportunidade que a internet ofereceu para “reencontrar-se com pessoas que foram apagadas dos jornais e com autores que foram silenciados”. Nas palavras de Jean-François Fogel, conselheiro internacional do diário francês Le Monde e moderador do seminário no qual se incluiu a intervenção de Yoanis Sánchez, a blogueira cubana “fez uma experiência quase definitiva” de como as novas tecnologias estimulam informações nos consumidores, novos e velhos.



Fogel destacou a força do blog “Generación Y” e o caráter diferencial de Sánchez com a dissidência clássica contra o regime cubano, uma vez que o que ela busca é “falar de sua vida” e da rotina diária que os cubanos da rua enfrentam. Para dar uma dimensão de seu impacto na blogsfera, Fogel contou que antes de entrar no seminário consultou o último escrito incluído por Sánchez em seu blog sobre “a volta à normalidade” após o último furacão, e que os apenas dois parágrafos – “quase filosóficos” – do comentário já haviam recebido 2.964 comentários.


A blogueira acrescentou outro dado sobre o grande impacto de seu portal: “recebo entre 8 e 10 milhões de visitas por semana”. Em uma gravação de 11 minutos Sánchez também falou o que diferencia os blogueiros cubanos dos jornalistas dissidentes na ilha, 25 dos quais continuam presos em cárceres cubanos após a detenção do chamado “Grupo dos 75” na primavera de 2003. “Nós damos mais opinião do que informação estamos mais marcados pelas experiências pessoais de caráter subjetivo e somos de uma geração mais jovem, que sabe manejar a tecnologia”, explicou. A blogueira reconheceu que sua tarefa é “bem complicada” (Por certo! Passar-se por opositora sem ser molestada, ter todas as regalias que tem e ainda ser convincente em seu papel de dissidente, não é tarefa fácil!), porém sublinhou que significa “a única possibilidade” de dar a conhecer suas opiniões, partindo do convencimento de que “nunca ia ter um minuto” nos meios oficiais de informação em Cuba.



Em que pese que a internet funcione em Cuba de uma maneira “rudimentar”, Sánchez assegurou que “chega às pessoas” e supõe ser um estímulo na luta “contra a apatia, a inação e as insatisfações”. Depois de ler e reler as palavras da blogueira Yoanis Sánchez, não nos resta outra alternativa a não ser expor que a única blogueira com essas liberdades em Cuba é ela, que nenhum outro opositor, jornalista independente ou povo em geral tem acesso à internet, e que se alguém a tem é uma minoria e quase todos comprometidos com o regime.


Como ela pode falar dos prisioneiros políticos e de consciência se quando este fato ocorreu ela não vivia em Cuba, nem conhecia seus malabarismos para poder burlar realmente a repressão e a perseguição? Não creio que ela seja de uma geração inferior à dos jornalistas independentes, nem dos opositores, e muito menos dos presos creio que o mundo deve argumentar sobre a idade dos mesmos, que todos são posteriores a 59, o que indica que seus argumentos e justificação estão muito mal concebidos.



E se estas explicações não são suficientes, quem desejar pode se remeter a um jornalista independente ou opositor pacífico, tanto em Cuba como fora dela, que eles poderão contar a realidade porque são os únicos que têm a última palavra. Em Miami vive um grande número de opositores pacíficos e jornalistas independentes com experiência em repressão, perseguição e cativeiro quem não compreender o que se expõe neste Editorial, por favor comunique-se conosco que, com muito prazer, qualquer um deles lhes contará de suas vivências e a realidade de fazer oposição em um país totalitário. O texto original pode ser lido aqui.





Comentários e Tradução: G. Salgueiro