VW II - O JURÍDICO

 

VW II - O JURÍDICO



Jacy de Souza Mendonça

 



Leiding descreveu a figura do então gerente do Departamento Jurídico e em seguida perguntou-me se desejava um período de cogestão. Rjeitei. Assim, no dia de minha posse, fui apresentado a ele pelo Diretor de Recursos Humanos, Ignácio de Barros Barreto.

Minha primeira impressão foi das piores. A biblioteca do Departamento ficava fechada na sala do gerente e só ele e seu assistente tinham acesso aos livros advogados não. Não sei por que, tive a atenção despertada para um dos volumes ali amontoados certamente pelo nome do autor destacado na lombada: Humberto Alencar Castelo Branco. Abri. Era a Constituição Federal... Havia um cofre na sala quis saber qual seu conteúdo e como acessá-lo. Rodado o segredo e girada a chave, pude perceber que lá se encontravam apenas perfumes e desinfetantes. Explica-se: cada vez que o gerente apertava a mão de alguém, corria a desinfetar sua manopla. No dia seguinte, encontrei um maço de papel: cópia de um memorando juntado aos autos da ação de alimentos na qual ele era réu, sendo autores sua mulher e filhos. As barbaridades ali escritas, as confidências próprias de alcova eram de tal maneira chocantes que resolvi queimar imediatamente o material. Hoje estou certo de que seria peça preciosa para um p

rofessor de psiquiatria. O assistente da gerência não era muito diferente, mas pouco permanecia na empresa, estava sempre no CREA, cuidando do registro dos engenheiros da fábrica, atualizando seu organograma técnico e pagando as taxas correspondentes, atividades que tirei da agenda definitivamente nos primeiros dias.

Para compensar esse tétrico quadro, havia três jovens advogados, totalmente dedicados à empresa, mas completamente desmotivados. A atividade mais frequente de que eram incumbidos consistia em procurar modestas oficinas mecânicas pelas ruas da cidade, que faziam promoção de serviços usando o símbolo VW, a mais das vezes miseravelmente desenhado foi outra atividade estancada nos primeiros dias. Um funcionário do Departamento era encarregado de levar e trazer o Livro de Atas da sociedade que era preenchido por um escritório de advocacia externo, atividade mais resistente, porque foi necessário, antes, conquistar a credibilidade do setor.

As tarefas específicas da advocacia empresarial não eram confiadas ao Departamento Jurídico. Recursos Humanos cuidava das questões trabalhistas o Departamento de Impostos, das tributárias e problemas mais complexos eram entregues a escritórios externos.

Como é que a VW suportou essa situação por tanto tempo? Não sei. Certamente graças à seriedade de seus funcionários e a seu prestígio internacional.

Passados alguns meses de observação, redigi um relatório à Presidência descrevendo, na medida do possível, esse quadro ridículo e apontando o que precisava ser feito para montar um Departamento Jurídico. Em cinco minutos recebi de volta meu relatório, acrescido de uma palavra apenas e da assinatura do destinatário: Ja! A partir daí tive carta branca para estruturar o setor, a começar pela disposição física e chegando à seleção de pessoal externo. Todos os serviços de natureza jurídica espalhados pela empresa foram arregimentados, com seu pessoal e responsabilidades. Uma Biblioteca foi organizada um arquivo de documentos também. O quadro funcional foi completado com a seleção de ótimos profissionais e, a partir daí, nos impusemos aos demais setores da empresa. O princípio adotado: liberdade de trabalho, com responsabilidade. Apenas uma vez essa orientação foi quebrada e seu autor imediatamente dispensado. Não quero citar o nome de nenhum desses queridos companheiros, po

rque temo pecar por omissão.

Criamos a consciência de que era necessário orientar o pessoal da empresa, para prevenir e evitar problemas. Acabamos com a prestação de serviços por terceiros. Só três vezes solicitamos parecer jurídico de evidente autoridade profissional externa, por entender realmente indispensável. Todo o serviço jurídico foi assumido por aquela equipe maravilhosa, da qual tenho muita saudade e da qual sempre me orgulharei.

Assim tudo continuou até a formação da Autolatina, quando o jurídico foi confiado ao pessoal Ford, com filosofia exatamente oposta.