CIÊNCIA X RELIGIÃO

 

CIÊNCIA X RELIGIÃO

Jacy de Souza Mendonça



As páginas da imprensa brasileira estiveram prenhes recentemente do debate sobre a inclusão ou não da teoria darwiniana sobre a evolução das espécies nos currículos escolares. Protestaram alguns contra o choque dessa posição pretensamente científica com a lição religiosa do Gênesis sobre a criação de Adão. Em nome da ciência sustentavam os outros que o homem não teria sido criado por Deus, seria apenas um elo natural, resultante da evolução das espécies materiais.

Conflito sem nenhum sentido.

Em primeiro lugar, a observação de Darwin limitou-se a que a escala dos seres mostra mínima diferença entre uma espécie e outra, formando uma escala quase perfeita. Mas nem ele, nem ninguém depois dele, afirmou a transição de uma espécie para a outra. Limitaram-se à constatação da similitude, sem pretenderem ter descoberto uma lei de passagem entre as espécie. A afirmação de Darwin foi apenas no sentido de que os dados por ele observados poderiam embasar uma tal evolução, ou seja, não se trata de lei científica, mas de teoria, explicação possível, provisória, a ser pesquisada. Por sinal, a ciência é cheia dessas teorias, a começar pela teoria atômica.

Por outro lado, é necessário reconhecer que a descritiva da criação do homem constante do Gênesis é meramente simbólica. Não é crível que Deus precisasse assumir o papel de oleiro para modelar no barro a figura humana à qual daria vida. Quem leu toda a Bíblia (eu li) sabe que esse livro emprega diversas formas de manifestação do pensamento. Por vezes trata friamente fatos ocorridos no passado, como a história do povo hebreu e seus reis outras vezes, para descrever a relação mística, emprega a linguagem idílica, no Cântico dos Cânticos manifesta-se também em relação ao futuro nos livros dos profetas em certo momento assume a forma do terror, em catastrófica previsão futurística no Apocalipse... Ou usa a parábola na pedagogia do amor. O Gênesis é pura metáfora. A mais profunda e elementar exposição sobre a temática filosófica fundamental, relativa à origem do homem e sua natureza, é apresentada sob forma quase poética. Afirma-se ali, como concluirá mais tarde a teologia, que existe um Deus que tudo criou, inclusive o homem, este com dimensão tão material quanto o barro, no qual Ele insuflou uma alma à que deu Inteligência, capaz de distinguir o bem do mal, e liberdade para optar entre um e outro, podendo cair na tentação de ver o bem e preferir o mal, mas pagando o preço dessa escolha.

Em suma, nem a afirmação de Darwin é ciência, nem a descritiva bíblica é dogma

Um tremendo conflito sobre dois nadas.