COLOMBIA: A MARCHA DE 9 DE ABRIL E O FSP

 

A marcha do 9 de abril e o Foro de São Paulo



Ricardo Puentes Melo



Quando entrei no Hotel Tequendama, neste 8 de abril passado, me encontrei de frente com o congressista Iván Cepeda, filho do fariano Manuel Cepeda, em cujo nome está batizada a Frente mais sangrenta das FARC. Não lhe pronunciei palavra nem lhe dirigi olhar algum esperando, em retribuição, que não me impedisse de estar presente nesta reunião de conspiradores pró-terroristas do Foro de São Paulo.



Porém, nem bem havia entrado no salão Esmeralda do Hotel Tequendama - onde se desenrolava a reunião - Cepeda e Sergio de Zubiría Samper (comunista professor da Universidade Nacional e Universidade del Bosque) se aproximaram de Clara López Obregón e cochicharam não sei o quê para, ato contínuo, enviar-me uma delegação que me convidou a sair do recinto “por bem”. A razão? Que os membros do Polo, Progressistas, Marcha Patriótica-FARC, Partido Verde, Partido Comunista, etc., iam falar descaradamente sobre a Marcha do 9 de abril, as conversações com as FARC e os passos que estão dando para a tomada do poder.



Esta era uma reunião do Foro de São Paulo, um organismo do qual formam parte os partidos comunistas e as guerrilhas colombianas e da América Latina, e cujo objetivo é instaurar o neo-comunismo na região.



A finalidade deste Grupo de Trabalho reunido em 8 de abril, como já se disse, era concretizar o apoio e a logística para a Marcha do 9 de abril, convocada pelo governo e pelas FARC. Também, certamente, o Grupo de Trabalho tinha como missão referendar seu respaldo às conversações com as FARC.



Assim, pois, cheguei muito cedo nessa manhã do 8 de abril, mas mal me deixaram permanecer lá 4 minutos. Nas horas da tarde voltei e, aproveitando que Iván Cepeda não estava, pude ficar um bom tempo, o suficiente para ouvir como os dirigentes do Foro, em meio aos aplausos dos presentes, rotulavam nossos militares de criminosos e assassinos, enquanto que qualificavam as FARC de “heróicas e gloriosas forças guerrilheiras”. As loas e as palmas também se ouviram quando se lançaram “vivas” a Chávez e Maduro. Certamente também houve aplausos para Tirofijo, Reyes, o Mono Jojoy e Alfonso Cano.



Muitas coisas interessantes falaram lá nessa tarde. Foram muito claros em que a assinatura da paz não lhes interessava, e que isto era apenas um veículo para o que verdadeiramente buscam: a tomada do poder. Dois membros do Foro de São Paulo falavam com delegados do Polo e asseguravam que haviam se reunido com o camarada presidente Juan Manuel Santos para lhe propor que se devia fazer o necessário para que a esquerda colombiana chegasse unida nas próximas eleições. Disseram que o presidente Santos os havia escutado e que iam se reunir, uma vez terminada a marcha.



Falaram que as FARC não deveriam abandonar as armas nem se desmobilizar completamente, e que era necessário que os opositores à subversão fossem “calados” (leia-se “eliminados”) de que maneira fosse, já que - se não fizessem - estes opositores se converteriam em obstáculos para a tomada do poder na Colômbia. Citaram o caso da Guatemala, onde não se “calaram” os opositores da subversão e, como conseqüência, eles chegaram ao poder por votação popular.



Apoiaram cabalmente os diálogos em Havana e disseram que era imprescindível levar adiante o tema de terras e zonas de reserva camponesa, já que isto serviria para fazer presença e governar em territórios do país, conseguindo autonomia importante com vistas à tomada total do poder na Colômbia. Falou-se de mineração e da necessidade de taxar com mais de 38% a atividade desenvolvida pelas empresas estrangeiras, tal e como Chávez fez na Venezuela.



Comentou-se que delegados do Foro de São Paulo se reuniriam com membros do governo e das FARC na mesa de negociações em Havana. Isso também - disseram - se conseguiu com Santos. Igualmente, falou-se da reunião plena do Foro em julho próximo, onde estão como convidados de honra as FARC e o governo de Juan Manuel Santos. Santos se comprometeu - disseram - a contribuir com o que fosse necessário para essa reunião do Foro no Brasil, embora ainda não disse formalmente a quantia da “contribuição”.



Falou-se de que, graças a que a União Européia declarou que as FARC eram terroristas, a esquerda européia não pôde participar abertamente das conversações em Havana e que devido a isso as reuniões tiveram que se realizar na Noruega. Todos se alegraram com a notícia de que já se havia iniciado um desdobramento político para pressionar o parlamento europeu, com a finalidade de tirar das FARC o qualificativo de “terroristas”.



O Foro de São Paulo declarou também que a esquerda colombiana deve pressionar fortemente para que as negociações se dêem rapidamente uma vez que, disseram, o “imperialismo norte-americano” junto à “oligarquia guerreirista colombiana estão fazendo o impossível para impedí-lo”. Foram claríssimos em que não importa o conteúdo dos acordos, senão que se assine rapidamente o que seja.



Ratificaram que a contenda eleitoral não ia se dar entre Santos e Uribe, senão entre a esquerda e Uribe. E ressaltaram que depois da assinatura da paz, era necessário montar um grupo de memória histórica, sem incluir os inimigos da subversão.



Também aplaudiram que alguns membros das Forças Militares estivessem trabalhando com a esquerda colombiana, em especial com o grupo de Clara López Obregón.



Antes de sair, comentaram alvoroçados que os Progressistas (partido de Gustavo Petro), e a Marcha Patriótica (das FARC) solicitaram formalmente seu ingresso no Foro de São Paulo. Não disseram nada a respeito do Partido Verde. Será que já forma parte do Foro de São Paulo? Vai-se saber...



Para informação de quem deseje, aqui está a lista de alguns dos participantes deste Grupo de Trabalho de apoio às FARC:



Piedad Córdoba (senadora pelo Partido Liberal, destituída. Marcha Patriótica), Iván Cepeda Castro (Representante na Câmara pelo Polo Democrático Alternativo), Clara López Obregón (presidente do Polo), Carlos Romero (Comunista, do Polo, esposo de Clara López), Gloria Flórez, Parlamentar Andina (de Progressistas), Carlos German Navas Talero (do Polo), Carlos Bula (Polo), Jaime Dussán (Polo), Glicerio Perdomo (Progressistas, guerrilheiro do M-19), Glória Inés Ramírez (Partido Comunista), Jaime Caicedo (Partido Comunista), Fermín González (Presentes pelo Socialismo), Estefan Balet (Presentes pelo Socialismo), Jaime Zubieta (Vice-presidente do Polo e membro do Comitê Executivo do Foro de São Paulo em Bogotá), Nelson Linares (Polo), José Fernando Castro (Polo), Hilda Carrera (do grupo de Iván Cepeda), Sergio de Zubiria Samper (Relações Internacionais do Partido Comunista Colombiano), Ángela María Robledo (Representante da Câmara de Bogotá pelo Partido Verde), Mauricio Piña (Vice-presidente das juventudes de Bogotá, pelo Polo), Jorge Armando Crispín (Secretário Executivo do Polo em Bogotá), Gonzalo Arcila Ramírez (Polo), José Rubiel Vargas (JUCO - Juventude Comunista -, detido em 2004 por nexos com as FARC) e um representante do senador Jorge Enrique Robledo (Polo).



Como delegados internacionais esteve um deputado da Esquerda Unida da Espanha, e da direção do PIE (Partido de Izquierda Europea). Também acudiram ao chamado Rolando Carrasquilla (Partido Comunista panamenho), Diego Torres (Partido Comunista do México). Um representante de “Movimentos Sociais para a ALBA”, outro do País Basco, de Organizações Juvenis. Hugo Cabieses (Partido Socialista do Peru, e da secretaria Andino-Amazônica do Foro de São Paulo).



E outros vários delegados representantes de vários países da América Latina (Argentina, Brasil, El Salvador, Guatemala, México, Nicarágua, Panamá, Peru, Uruguai e Venezuela) e da esquerda européia. Certamente não faltaram os guerrilheiros comunistas da Nicarágua, Guatemala e México, e posso adivinhar que três tenebrosos personagens colombianos que estavam ali eram das FARC.



Foro de São Paulo e a marcha do 9 de abril



Sobre a marcha do 9 de abril, foi meridianamente claro o apoio que o Foro de São Paulo prestou a esta jornada. Estive na Praça de Bolívar, onde me impactou a grande maioria de marchantes indígenas, seguido pelas comunidades negras e, em menor escala, funcionários oficiais. E não me surpreendeu ver membros do Foro de São Paulo no palanque que colocaram na Praça de Bolívar.



Falei com uns indígenas que me asseguraram, não sem temor, que as FARC visitaram fazenda por fazenda no Cauca e ameaçaram camponeses e indígenas. Disseram-lhes que se não enviassem um ou dois membros de cada família à marcha, eles lhes cobrariam uma multa de 600 mil pesos [1].



Quase todos os da marcha vestiam camisetas da Marcha Patriótica, repartiram tamales [2] grátis, e a maconha circulava como pão quente entre a multidão. Vi cartazes do M-19, da JUCO, do ELN, do Partido Comunista, do Polo Democrático, do movimento “cristão” MIRA, do Poder Gay, do Che Guevara, de Chávez, de Maduro, de Fidel Castro.



Petro decretou dia cívico, porém obrigou os empregados oficiais a ir à marcha, sob pena de duras sanções (como trabalhar jornada completa, apesar de ser dia cívico). O Decreto fala de que a marcha se faz porque, dentre outras razões, há um “conflito armado interno que necessita ser resolvido pelas duas partes” (FARC-Estado) de maneira pacífica.



Tirando conclusões desta falida jornada pró-terrorista, podemos dizer que os convocantes foram: a Marcha Patriótica-FARC (que pôs a maioria dos participantes), o camarada Santos (que convocou empregados do governo e membros da Força Pública), Gustavo Petro (que obrigou os empregados oficiais a participar) e a hierarquia católica, mais exatamente o cardeal comunista Rubén Salazar. Dos meios de comunicação, convocaram El Tiempo, Caracol e um setor de RCN.



Deve-se ressaltar que essas convocatórias não tiveram êxito em outras cidades, e que em Bogotá pôde-se apreciar uma multidão porque as pessoas do interior foram trazidas à cidade pelas FARC-Marcha Patriótica.



Honestamente, não assistiram em Bogotá mais de 40 mil pessoas e, sendo generosos, no resto do país apenas conseguiram somar 10 mil. Essa será a votação por Santos e/ou a esquerda nas próximas eleições. O que vimos em 9 de abril de 2013 é a capacidade de convocatória de Santos, Petro, FARC, a hierarquia da Igreja e El Tiempo. Indubitavelmente eles foram os grandes derrotados. De nada valeram os tamales grátis, os concertos e a maconha que abundou nos locais de concentração.



E a conclusão final. O Foro de São Paulo tem razão. A próxima contenda eleitoral não será entre Santos e Uribe, senão entre a esquerda terrorista e Uribe. E a candidata que se aclamou foi Clara López Obregón. Para que vão vendo.



Notas da tradutora:



[1] O equivalente a R$ 600,00.



[2] “Tamal” é uma espécie de empanada feita com farinha de milho, envolvida em folhas banana comprida, que se cozinha no vapor ou no forno e recheada com ingredientes variados.





 

Tradução: Graça Salgueiro