TROTSKY, O PROFETA ARMADO

 

Trotsky, o profeta armado


por Carlos I.S. Azambuja


 em 15 de fevereiro de 2007

Resumo: A França é o país onde Trotsky sempre foi mais incensado e o trotskismo mais difundido. Diversas correntes do trotskismo internacional tiveram sua origem nesse país e ainda hoje suas direções estão lá fixadas.

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"Uma consciência pura é com bastante freqüência o resultado de uma memória ruim".


(Aforismo polonês).




Leon Davidovich Bronstein (Trotsky), um intelectual e revolucionário bolchevique, nssceu na Ucrânia em 7 de novembro de 1879 e foi assassinado em Coyocán, México, em 21 de agosto de 1940.



Desempenhou um importante papel político na Revolução Bolchevique de 1917, primeiro como Comissário do Povo (Ministro) para os Negócios Estrangeiros, posteriormente como criador e comandante do Exército Vermelho e membro do Politburo do Partido Comunista da União Soviética. Afastado por Stalin da direção, expulso do partido e exilado da União Soviética, refugiou-se no México, onde foi assassinado por um agente às ordens de Stalin. As suas idéias políticas expostas numa obra escrita de grande extensão, deram origem ao trotskismo, corrente do marxismo ainda hoje existente em todos os países.



A França é o país onde Trotsky sempre foi mais incensado e o trotskismo mais difundido. Diversas correntes do trotskismo internacional tiveram sua origem nesse país e ainda hoje suas direções estão lá fixadas.


Muitos representantes do status quo francês, de tempos em tempos, se confessam "antigos trotskistas". O mais recente talvez, tenha sido o jornalista Edwy Plenel, diretor de redação do jornal Le Monde - carro-chefe da imprensa burguesa francesa -, que publicou uma autobiografia intitulada Segredos de Juventude (Stock, Paris, 2001) na qual, apaixonadamente, confessa seu passado trotskista. Escreveu ele: "O trotskismo é uma esperança e uma herança que sempre fará parte da minha identidade, não como um programa ou projeto, mas como um estado de espírito, como um princípio crítico feito de deslocamentos de acuidade, de derrotas e fidelidades". Plenel foi um membro da Liga Comunista Revolucionária, grupo pablista (referência a Michel Raptis, um trotskita grego exilado que na França adotou o codinome de `Pablo´) que abandonou a perspectiva da Quarta Internacional em 1953. A lealdade de Plenel ao Estado francês é indiscutível, assim como Lionel Jospin, também um ex-trotskista, que foi Primeiro-Ministro entre 1997 e 2002 pelo Partido Socialista.



Plenel, todavia, adora somente uma face do seu ídolo: a face aceitável, a do herói decaído, exilado, inofensivo. Com um sofrimento lacrimejante ele resgata o destino trágico da família de Trotsky: o suicídio de sua filha, sua primeira mulher fuzilada, seus dois netos mortos na tormenta stalinista, seus três genros liquidados, sua neta deportada. Ora, o fato de Trotsky, sua família e seus partidários terem sido vítimas de Stalin apenas revela as querelas da grande família leninista e em nada retira as responsabilidades de Trotsky na instalação do sistema totalitário.



Edwy Plenel esqueceu a parte decisiva de Trotsky no putsch de 7 de novembro de 1917 e na tomada do poder pelos bolcheviques: a partir de 20 de novembro de 1917, Máximo Gorki estimava que Lênin e Trotsky eram homens que "não tinham a menor idéia do que significam a liberdade e os Direitos Humanos" e que já estavam "contaminados pelo veneno do poder". Plenel também se esqueceu que Trotsky foi o criador do Exército Vermelho, que foi um dos líderes do terror bolchevique e um dos pilares do sistema comunista mundial, tanto em virtude de sua vocação de esmagar, desde o princípio, toda veleidade de revolta, quanto por sua propensão a exportar os métodos comunistas para os países limítrofes, desde a Geórgia em 1922, a Polônia, a Bessarábia e os Estados Bálticos em 1939-1941, o Leste Europeu em 1944-1945, até o Afeganistão em 1979.



Trotsky foi o fundador dos campos de concentração soviéticos no verão de 1918 e cobriu com sua autoridade inúmeros massacres perpetrados por seu´exército, inclusive os massacres dos judeus. A dizimação da família de Trotsky por Stalin foi uma resposta direta ao decreto acerca dos reféns tomados pelo Exército Vermelho em 1919, que justificava a internação e o fuzilamento das famílias dos `brancos´.



Trotsky foi o general-chefe que conduziu a repressão contra os marinheiros, os operários e os camponeses da ilha de Kronstadt, revoltados contras a `autocracia bolchevique´, em março de 1921. Depois de violentos combates, os rebeldes foram esmagados na manhã de 18 de março, exatamente 50 anos depois da proclamação da Comuna de Paris. Cerca de mil prisioneiros e feridos foram fuzilados no local, 2.103 outros foram condenados à morte, 6.459 foram levados às prisões e campos de concentração (dos quais apenas 1.500 ainda estavam vivos um ano depois). No dia seguinte ao da vitória, o `feldmarechal´ Trotsky - como o apelidaram seus adversários - passando as tropas em revista, fez o seguinte pronunciamento marcial: "Com um heroísmo sem precedentes, num fato militar inaudito na história desta guerra, nossos cadetes e nossas unidades do Exército Vermelho tomaram de assalto uma fortaleza naval de primeira linha. Sem darem um tiro sequer, eles progrediram sobre o gelo, e pereceram. Eles venceram, esses filhos da Rússia operária e camponesa leais à revolução. O povo trabalhador da Rússia e do mundo não os esquecerá" (1).



Foi ainda Trotsky que, no verão de 1923, deu grande encorajamento a uma insurreição armada na Alemanha, contribuindo para a exacerbação do clima de guerra civil que reinava no país, desestabilizando-o e alimentando o crescimento da extrema-direita, com o putsch fracassado dos nazistas em Munique, em setembro de 1923. E também foi Trotsky quem, em 4 de junho de 1918, declarou publicamente: "Nosso partido é a favor da guerra civil. A guerra civil deve ser conduzida em busca dos cereais (...) Sim, longa vida à guerra civil", e logo depois afirmava: "Devemos dar um fim, de uma vez por todas, à fábula acerca do caráter sagrado da vida humana". Plenel se esqueceu ainda que Trotsky não se contentou em agir, mas que ele, por muito tempo, justificou suas ações, inclusive as mais criminosas, em seu livro de 1920, Terrorismo e Comunismo, editado na França, na primavera de 1936, com um novo título, o qual não deixa margem a qualquer ambigüidade: Defesa do Terrorismo. Uma tal amnésia sistemática de um jornalista informado e trotskista assumido conduz à perplexidade e pode ser dito que memória demais mata a História.



Mais adiante Edwy Plenel fala da `ideologia bolchevista da qual Trotsky se quis o guardião exclusivo, sem escórias nem impurezas´. De fato, foi Trotsky que declarou, durante o XIII Congresso do Partido Bolchevique, depois da morte de Lênin: "Em última análise, é sempre o partido quem tem razão, porque ele é o único instrumento histórico de que dispõe a classe trabalhadora para resolver seus problemas fundamentais (...) mesmo que ele aqui ou ali venha a se enganar acerca de tal ou tal posição prática, trata-se do meu partido" (2). Essa interiorização da dimensão totalitária da aventura bolchevique fez de Trotsky um homem incapaz de contestar o sagrado caráter do partido, que foi, ao mesmo tempo, a condição primeira da manutenção dos bolcheviques no poder e a base a partir da qual Stalin pôde impor seu domínio absoluto sobre o PCUS, sobre o país e sobre o Komintern.



A derrota política e o exílio não parecem ter modificado as posições de Trotsky. Em um texto de sua autoria, publicado na França em março de 1939, sob o título A Moral deles e a nossa (Paris, Le Sagittaire), Trotsky condena a "eterna moral e a moral idealista, que são contra-revolucionárias". Estimando que a moral "é apenas uma das funções ideológicas da luta de classes", "um produto funcional e transitório da luta de classes", ele acrescenta: "A guerra civil, forma culminante da luta de classes abole violentamente todos os liames morais entre classes inimigas". Ao superpor o campo da moral e o campo político, Trotsky afirma que "as questões de moral revolucionária se confundem com as questões de estratégia e de tática revolucionárias (...) O juízo moral é condicionado, com o juízo político, pelas necessidades interiores da luta" . Finalmente, Trotsky assim definiu sua postura moral: "Não poderia haver no revolucionário marxista contradição entre a moral pessoal e os interesses do partido, pois o partido abraça, na sua consciência, as tarefas e os fins mais elevados da humanidade".



Não fosse a roupagem marxista, poder-se-ia ouvir, nesse discurso, o niilista russo Serguei Netchaiev, em seu famoso Catecismo do Revolucionário, redigido 70 anos antes, em 1869: "O revolucionário despreza e detesta a moral atual da sociedade em todos os seus motivos e manifestações". Para ele, é moral tudo o que contribui para o triunfo da revolução. Imoral e criminoso é o que a entrava.



As afirmações de Trotsky demonstram que um ano antes de ser assassinado, em nome de `sua´ moral, pelos esbirros de Stalin, ele continuava a reivindicar os assassinatos em massa que ele mesmo comandara entre 1918 e 1922. O anti-stalinismo não garante o título de anti-totalitário para Trotsky e seu lado carrasco e inimigo da democracia é claramente preponderante sobre o lado da vítima. Os trotskistas também estão inscritos nessa face sombria de seu ídolo e deveriam tirar proveito da reflexão que Emile Cioran, jovem intelectual da Romênia de 1936-1940, retirou de sua própria experiência:


"Nós queríamos surgir na superfície da história, venerávamos os escândalos, único meio, pensávamos, de vingar a obscuridade de nossa condição, nossa sub-história, nosso passado inexistente e nossa humilhação presente. `Fazer história´, era a frase que retornava incessantemente a nossos lábios, era a palavra de ordem. Improvisávamos nosso destino, estávamos em rebelião aberta contra nosso nada. E não tínhamos medo do ridículo. Pois nosso saber era insuficiente e nossa experiência ilusória (...) Quanto a mim, eu devia perder até mesmo o desejo de flertar com o frenesi, com a convulsão, com a loucura. Minhas extravagâncias de então me pareciam inconcebíveis, eu não podia nem mesmo imaginar para mim um passado. E quando hoje penso nisso, parece-me que estou lembrando os anos de outra pessoa. E se trata de um outro a quem rejeito, todo `eu mesmo´ está alhures, a mil léguas do que foi".



A matéria acima é um resumo das páginas 84 a 94 do livro Cortar o Mal pela Raiz! História e Memória do Comunismo na Europa, diversos autores sob a direção de Stéphane Courtois, editora Bertrand do Brasil, 2006.


(1) Pierre Broué, Trotsky, Paris, Fayard, 1988


(2) Idem