BEM VINDA A MORTE DOS DEMAIS

 

Bem-vinda a morte dos demais!



Esteban Casañas Lostal


Morreu Orlando Zapata Tamayo, um dissidente cubano submetido a injustas condenações por pensar diferente e declarar abertamente sua rebeldia pacífica, sem matar ninguém. Seu encontro com a morte transcorre em câmera lenta, muito silenciosa, com essa calma cúmplice e útil para ocultá-la. Escuta-se a voz desesperada de uma mãe que grita, pede compaixão desde uma ilha, só uns poucos escutam e se fazem eco dela, todos nasceram no mesmo lugar. Em sua terra escassas pessoas se inteiram, só seus companheiros de luta e alguns dentro do raio de ação, carecem de meios para alertar seu povo sobre este novo crime cozinhado em seu país. O eco é profundo no exterior, seus companheiros desterrados não o esqueceram, não podem fazê-lo, as cicatrizes que levam em seus corpos ainda sangram. Pedem em todas as direções um gesto de solidariedade, porém o mundo é surdo.


Morre finalmente e se converte em notícia, pasto para famintos comunicadores, extremistas, patrioteiros, falsos lutadores de algibeira, demagogos, politiqueiros, oportunistas. “Esse é o momento oportuno para ganhar algum ponto nas pesquisas”, pensa o político que esteve calado enquanto Tamayo morria, hoje entristecido e preocupado ante seu público de paletó e gravata. “É o sopro perfeito para explorar a notícia”, pensa o comunicador, e entre notas carregadas de um lirismo que ninguém acredita, desenterra parte daquela vida hoje sepultada e a explora, estremecem suas palavras, quase chora ante nossos televisores. Ah!, não fodam!


Morreu um simples negro que para mais desgraça era só um pedreiro e encanador, humilde, porém sua pior desventura radica na cor da pele. Seus verdugos se preocupam e começam a divulgar que trata-se de um delinqüente, muitos acreditarão e o condenarão ao esquecimento dentro de algumas semanas isso não falha. A humanidade tem memória ruim e está esgotada de tantos heróis de verdade, então se inclinam pelos virtuais.


Só um reduzido grupo deste planeta o recordará e dará graças eternas por esse gesto tão valente. Nem todos oferecem sua vida para chamar a atenção sobre o que ocorre com o nosso povo. Bem-vinda seja esta morte, pensarão todos aqueles que a desfrutaram e tiraram partido dela.


Tamayo soube tirar as máscaras de muitos que permanecem calados, os defensores do diálogo, os que advogam por uma reconciliação doentia, os embaixadores desse “amor” inexistente e se fazem proprietários da palavra povo, “somos um povo”!, gritam os mais descarados. Não o somos, definitivamente. Somos dois povos diferentes que vivem em ambas as margens do Estreito da Flórida. Os que aceitam viver como carneiros e os que renunciam a ser escravos.


Obrigado, Tamayo! Obrigado por nos dar uma lição de dignidade, valor, decoro, virilidade. Tua morte será esquecida pela imprensa depois de amanhã, porém tua lembrança viverá em nossos corações, junto às figuras de tantos como tu e que nunca morreram.


O Autor é exilado cubano residente em Montreal, Canada


Fonte: Conexión Cubana


Tradução: Graça Salgueiro