MÃOS LIMPAS E LAVAJATO
 

 

LIÇÃO DA HISTÓRIA

Jacy de Souza Mendonça



Um dado que ficará na História do século XX é a Operação Mãos Limpas, da Itália. Liderada pelo Procurador Geral Francesco Borrelli, de Milão, e pelo Procurador Antonio Di Pietro, fortemente amparada pela imprensa e pela opinião pública, combateu com rigor a corrupção que grassava naquele país. 6.059 investigações foram instauradas e 2.993 mandados de prisão expedidos, direcionados contra 1.978 administradores públicos, 872 empresários e 438 parlamentares. As condenações foram fartas e rigorosas. O movimento foi tal que, durante os trabalhos, ocorreram 12 suicídios de acusados e 4 Partidos Políticos que integravam ou tinham integrado o governo desapareceram.

Mas toda essa luta foi brecada por obra de membros do Poder Judiciário e pelos parlamentares assustados. Sentenças absolutórias, anistias e novas leis atenuantes foram empregadas como instrumentos de obstrução dos inquéritos e perdão aos delinquentes.

Resultado da frustração desse esforço de higiene política foi o retorno da corrupção à Itália e a volta dos mesmos corruptos e corruptores à atuação pública. Símbolo desse quadro, um dos empresários-políticos mais presentes nas conclusões dos inquéritos por corrupção e nas condenações por fraudes fiscais e abusos sexuais, Sílvio Berlusconi, retomou recentemente a liderança da política italiana. Ele que, naquele episódio foi preso e chegou ao ponto de exonerar um juiz que iria julgá-lo...

Assim como a Operação Mãos Limpas serviu de modelo à Operação Lava Jato entre nós - e o Dr. Sérgio Moro não oculta isso na tradução do livro sobre a matéria para o português - são evidentes os esforços no sentido de copiar também a solução final italiana, buscando dar cobertura e absolvição de todos os condenados e mesmo daqueles que foram objeto de inquéritos, processos judiciais e condenações aqui entre nós.

Não é de admirar que isso ocorra. O brasileiro só é impiedoso no momento em que aparece nas páginas dos jornais a notícia de um crime - exige que seja aplicada a pena de morte, antes mesmo do julgamento depois deste, acha sempre a pena muito dura e o criminoso um coitadinho quando ele é  enjaulado, inclina-se pela aceitação de medidas que lhe atenuem o sofrimento, até pelo relaxamento da prisão.

Oxalá isso não se repita agora.