POR QUE O SILÊNCIO SOBRE UM CRIME HEDIONDO?
 

 

Silêncio em Paris

O que significa quando ninguém fala sobre um brutal assassinato?

Theodore Dalrymple

CITY JOURNAL 

13/04/2017

Como toda pessoa casada sabe, os silêncios podem estar grávidos de significado, mesmo que o significado não esteja imediatamente claro. O silêncio na imprensa francesa sobre um evento recente surpreendente em Paris é certamente grávio de significado.

Na segunda-feira, 3 de abril, uma mulher judia ortodoxa, Sarah Halimi, médica de 66 anos, foi jogada por uma janela para a morte por um homem africano de 27 anos. Era seu vizinho no edifício onde moravam. De acordo com testemunhas, cujo testemunho ainda não foi confirmado, o homem, que a estava perseguindo com insultos durante vários dias, gritou "Allahu akbar!" quando a jogou.

Além disso, de acordo com relatórios não confirmados, os vizinhos tinham chamado a polícia por causa do comportamento do jovem. Três policiais vieram, mas não fizeram nada, decidindo que cabia a outras autoridades, presumivelmente psiquiátricas, agir. De qualquer forma, o jovem foi transferido para uma clínica psiquiátrica quase imediatamente após sua prisão.

Ele tinha uma história de delinquência e com toda a probabilidade havia tomado drogas. Parece provável que ele estivesse em estado de excitação psicótica induzida por drogas, exacerbada por drogas ou puramente endógena, no momento do crime.

Mas é sabido que os delírios da loucura tomam a coloração da cultura daqueles que os sofrem. (De Quincey diz, nas The Confessions of an English Opium Eater, que se um homem pensa em bois, seus sonhos de ópio serão com bois). Seria de uma credulidade ingênua sugerir que a vítima foi escolhida ao acaso, que ele poderia muito bem ter escolhido outra pessoa. Se for assim, revela algo desagradável no meio cultural do homem.

Mas por que o silêncio na imprensa? O caso foi certamente dramático o suficiente para ser digno ao menos de uma menção sob a rubrica de faits divers (notícias variadas). Acontece que eu só tomei conhecimento dele através de um vizinho parisiense, um comerciante judeu. A história tinha aparecido em La Tribune juive, e provavelmente causou frisson entre os judeus franceses, ainda mais por causa do silêncio da imprensa sobre o crime.

Esse silêncio era comandado ou coordenado de cima? Talvez ninguém quisesse elevar a temperatura da campanha para uma das eleições mais concorridas da história francesa recente, na qual existe a possibilidade - uma possibilidade pequena, mas ainda maior do que nunca antes - de uma vitória da extrema-direita.

Na tarde na qual eu soube do caso, eu fora a uma exposição que marcava o 30º aniversário do julgamento por crimes contra a humanidade de Klaus Barbie, o Carniceiro de Lyon, que dirigia a Gestapo ali durante a Ocupação. Foi realizada no Mémorial de la Shoah, um museu parisiense e centro de estudos dedicado à história do Holocausto. Se há algum pequeno museu no mundo mais defendido contra carros-bomba e com mais segurança, eu não sei.

Tradução: Heitor De Paola


 

 

Theodore Dalrymple é um colaborador do City Journal e autor de muitos livros, incluindo Not with a Bang but a Whimper: The Politics and Culture of Decline.