AS FARC NÃO MERECEM PERDÃO!
 

 

Perdoar as FARC por seu crime do Clube El Nogal?

Eduardo Mackenzie

O objetivo real do acordo assinado pela senhora Fríes é fazer com que as vítimas que ela representa ajudem a acelerar execução da justiça das FARC, a abominável JEP, que o país rechaça

É para que as vítimas perdoem seus carrascos ou para que eles peçam perdão às suas vítimas? No “acordo” que a senhora Frías assinou com um chefe das FARC isso não está claro.

Ouvi as declarações que a senhora Bertha Lucía Fríes concedeu à RCN a propósito de um acordo que ela teria assinado com um chefe das FARC em 28 de março passado. Segundo esse documento, ela e um chefe narco-terrorista se comprometeram a realizar uma eventual “coordenação de um ato público de verdade, perdão e reconciliação com as vítimas do atentado ao Clube El Nogal” de Bogotá.

Li com atenção esse “acordo”. Vejo que o que a senhora Fríes assinou ali não coincide com o que disse a imprensa sobre um ato no qual as FARC pediriam perdão pela horrível matança de 7 de fevereiro de 2003, que deixou 33 mortos, entre eles 6 crianças, e 168 feridos. Vale lembrar que o carro-bomba com 200 quilos de explosivos explodiu quando no edifício de 12 andares se encontravam cerca de 600 pessoas, com famílias inteiras, inclusive crianças que assistiam a uma piñata [1]. No mesmo dia, a Polícia evitou um novo atentado ao capturar dois milicianos das FARC que iam lançar cinco rockets contra edifícios do Governo, assim como do Ministério Público e contra a embaixada dos Estados Unidos.

RCN apresentou a senhora Fríes como a “porta-voz das vítimas do El Nogal”, um grupo que teria, segundo ela, umas 120 pessoas. Entretanto, a representatividade da senhora Fríes parece ser menor. No acordo que ela assinou para Carlos A. Losada, e que a RCN publicou, ela aparece como a “porta-voz e líder” de “um setor” das vítimas do El Nogal.

Ela mesma admitiu durante a entrevista que nem todos os integrantes desse grupo estão dispostos a perdoar as FARC, nem a receber pedido de perdão deles. Diz que algumas dessas vítimas “não querem nem vê-los” nem se reunir com eles, pois continuam tendo muito medo deles. Quem lhe deu procuração como porta-voz para que abrisse essa “negociação” em Havana?

Outro detalhe que chama a atenção é a forte hostilidade da senhora frente aos que duvidam de que as FARC queiram pedir perdão por essa matança covarde. Para ela, os que têm esses sentimentos obedecem a uma “postura de polarização” que os converte, obviamente, em culpados e em inimigos da paz, enquanto que as FARC querem “nos pedir um sentido perdão”.

Estranhamente, ela não entende “o ódio que as vítimas sentem” por seus agressores. Tampouco esconde seu desgosto ante a atitude do ex-ministro Fernando Londoño, que estima que os sócios do Clube El Nogal teriam respondido negativamente a esse acordo se os houvessem consultado. “Não há uma junta diretora que se atreva a cometer este atropelo contra a memória dos mortos, contra a dor dos feridos e o do clube inteiro”, explicou Fernando Londoño. O ex-ministro da Justiça acrescentou: “Agora querem mostrar um espetáculo sobre a dor das vítimas no Clube El Nogal. Isso não vai acontecer, tenham a certeza. Essa é uma notícia infundada”. Essa justa reação do ex-ministro desatou a cólera de Bertha Fríes que nega aos donos do El Nogal o caráter de vítimas do atentado em questão. “As perdas as tivemos nós, não a junta diretora”, disse. A senhora Fríes é que decide agora quem é ou não vítima desse atentado?

O mais chocante é que ela não mencionou nem uma só vez em sua declaração a RCN que o ex-ministro Londoño era o ministro do Interior e Justiça no momento da tragédia do El Nogal e que ele é, sobretudo, uma vítima direta das FARC, embora não tenha sido uma das vítimas do atentado de 7 de fevereiro de 2003. Tal hostilidade da senhora Fríes contra uma vítimas das FARC contrasta com sua boa disposição ente os verdugos. Diz ela que se reuniu “tranqüilamente” com os chefes das FARC em Havana, Iván Márquez, Carlos A. Losada, e até com o advogado fariano Enrique Santiago, e que negociar com eles “não foi difícil”, pois sempre os viu “como uns cidadãos comuns”. “Não me deu nada”, insistiu.

Se essa dupla atitude não suscita mal-estar, que outra coisa poderia fazê-lo? Os chefes das FARC não são gente “comum”. São grandes criminosos e depredadores que consideram que trabalharam bem, que lutam pela “justiça” e que não devem pagar um só dia de cárcere pelo que fizeram à Colômbia. Eles estão convencidos de que devem obter garantias e recursos financeiros do país para continuar no mesmo e domesticar suas vítimas e a opinião pública, a qual, segundo eles, deve esquecer o que ocorreu.

O mais grave é que o papel que Losada e a senhora Fríes assinaram não diz que as FARC se comprometem a pedir perdão. Negociado durante seis horas em novembro passado, esse texto diz outra coisa: que as partes trabalharão na “coordenação de um ato público de verdade, perdão e reconciliação com as vítimas do atentado ao Clube El Nogal”. O que é muito diferente. Vítimas e carrascos aqui são partes iguais, e ambas são atores de uma ópera bufa onde o perdão vai de um lado a outro sem saber quem pede perdão e quem aceita perdoar. O perdão é, ali, recíproco, na medida das FARC, que não se sentem culpadas de nada. Elas, dizem, são as “verdadeiras vítimas”. Logo, o perdão é um jogo confuso entre dois atores igualmente culpados, ou igualmente inocentes. Por isso o ato não será para que as FARC digam a verdade e peçam perdão, senão um ato de “verdade e perdão”, no qual é impossível ver onde está o bem e onde está o mal.

O objetivo real do acordo assinado pela senhora Fríes é fazer com que as vítimas que ela representa ajudem a acelerar a execução da justiça das FARC, a abominável JEP [2], que o país rechaça. Querem que essas vítimas contribuam para erigir esse cadafalso e aliviem as cargas das FARC para que o Papa abençoe os assassinos. Tal é o objetivo de seis dos sete pontos assinados. A senhora Fríes está convencida de que os terroristas “nos dirão a verdade”, de que haverá um “esclarecimento da verdade”. Porém, a “verdade” se reduz a muito pouco: a “verdade que eles [as FARC] conhecem”, diz literalmente o texto. Outro gol de Timochenko.

Notas da tradutora:

1 - “Piñata” é um baile de máscaras que se celebra no primeiro domingo da Quaresma e que se costuma incluir a diversão de “quebra panela”, onde as crianças, com olhos vendados, procuram acertar com um pau uma panela de barro cheia de guloseimas. 

2 - JEP é a abreviatura de Junta Especial para a Paz, uma excrescência jurídica que altera as leis e a Constituição colombiana, para dar um julgamento diferenciado aos criminosos, terroristas e narco-traficantes marxistas das FARC.

Tradução: Graça Salgueiro