ALEMANHA: ECOS DO PASSADO NAZISTA
 

 

Uma Alemanha totalmente diferente

Por Mely Kiyak, na coluna “Kiyaks Deutschlands”

Die Zeit  
 
25 de janeiro de 2017 

O que Björn Höcke disse em  Dresden [1] foi incomum ou formulado de maneira infeliz. O resultado foi um pensamento da ala da extrema direita do  AfD [2]

 Às vezes, uma frase de protesto pode causar repulsa. Embora, essa frase tenha sido formulada em um lugar ou época diferente seja bem parecida e possa manifestar boas idéias.
 

Isso foi mais ou menos o que aconteceu com o político de  Thüringen [3], Björn Höcke, há poucos dias atrás, em uma declaração feita sobre o Mausoléu do Holocausto de Berlim, o qual foi chamado de “Monumento da Vergonha”. O conceito da Alemanha de Sociedade da Superação e Sociedade Conhecedora da sua Culpa tem na ideologia de extrema direita, o mesmo significado de descrédito de uma nação, de um povo e de uma identidade. Certamente, a omissão e o recontar dos capítulos da história alemã, conseqüentemente, nunca são acidentes retóricos, mas conceitos políticos.
 

Björn Höcke redigiu em conjunto com seus colegas de partido, André Poggenburg e Alexander Gauland, a  “Resolução de Erfurt” [4] e a assinaram em março de 2015. A assinatura conjunta também foi feita pelo movimento  PEGIDA [5] e por Hans-Thomas Tillschneider, porta-voz do  Patriotische Plattform [6] ou Plataforma Patriótica (“Não somos idiotas, mas sim patriotas”), estudioso do Islã e deputado do AfD por Sachsen Anhalt. Logo que um dos três: Höcke, Poggenburg e Gauland, chegar a ficar sobre pressão, os outros correm para prestar auxílio. Seus poderes são extraídos de uma grande quantidade de seguidores das ruas, assim como das urnas.
 

O conteúdo da “Resolução de Erfurt” marca uma onda dentro do AfD, da qual aparece uma ala denominada “Der Flügel” ou “A Ala”, em português. Ela é como um reservatório, onde se guarda tudo o que é da direita como: PEGIDA,  Movimento Identitário [7],  Burschenhaften [8], Plataforma Patriótica e muito mais. Seu objetivo é não ter mais medo durante as negociações políticas, e nela orientar instituições, partidos e mídia. Visa disparar um raio que ajude a ampliar essas negociações.
 

Traduzindo tudo isso, significa que o AfD, pelo menos o “Der Flügel”, no futuro, não irá manter acordos sociais. O Mausoléu do Holocausto, por exemplo, é um acordo social. A recordação dos judeus assassinados é o resultado de décadas de debates e análises, em relação a culpas e a resposta em vista, da aniquilação de milhões de pessoas em nome da pureza de um povo.
 

Existe o compromisso para que as próximas gerações, não iniciem algo parecido e para isso, debate-se existência ou não Auschwitz, se foi ou não necessário matar judeus asfixiados por gás venenoso em câmaras, se tivemos de pagar pelos bombardeios em Dresden, ou os estupros realizados pelos soldados russos às mulheres alemãs.
 

O objetivo da superação é de não se precisar mais debater ou discutir, repetidamente, sobre novos direitos humanos para minorias étnicas ou religiosas, sobre os valores da democracia, o entendimento a respeito do racismo, o extremismo de direita e como o Estado se posiciona a respeito dos fatos. O compromisso soa de uma maneira de que não haja mais decisões a serem tomadas e que os ensinamentos devam ser passados do presente para o futuro. Em especial, que nunca mais alguém se levante contra algum segmento do povo, rotulando-os como inimigos, estigmatizando-os e os segregando.
 

A semântica do Nacional-Socialismo como apoio
 
 

O “Der Flügel” se lança sobre todo um contexto relacionado após 1945. Eles se vêem como um movimento de resistência, um organizador e uma figura para a “mudança”. Para onde a Alemanha deve avançar para uma “mudança” ou decidir “a hora entre a vida e a morte”, como diz no trecho do discurso de Björn Höcke, quando ele entrou em cena, no encontro de  Kyffhäuser [9], no ano passado.
 

O núcleo do discurso não está direcionado para algo que vise a melhoria das condições de vida dos alemães ou uma Alemanha melhor, mas sim para uma nova Alemanha. Uma total nova Alemanha. O caminho retórico para lá está pavimentado com alusões, citações e imagens do Nacional-Socialismo, dos quais os vocabulários usados se apóiam como um par de muletas.

A emoção do Nacional-Socialismo, do qual o “Der Flügel” do AfD, de modo algum, nem duvida e nem nega a respeito do Holocausto, ou seja, a ocorrência desse evento histórico. O genocídio de pessoas tem cada vez mais sendo deixado de ser considerado e vem caindo no esquecimento. Trata-se da limpeza e a bravura do “amado” povo alemão, o qual ainda tenta se recuperar do fato e nunca se livrou da culpa, pois foi sempre seduzido e manipulado. Por isso, é importante seguir o caminho correto.

A fascinação de uma ideologia étnica está sempre baseada no racismo. O nacionalismo precisa de duas coisas: um inimigo interno, o qual precisa ser combatido (Hesitação, Covardia) e um inimigo externo (os judeus, muçulmanos, democratas, esquerdistas e etc), os quais não são mais vistos como adversários em debates, mas caracterizados como inimigos.

Trechos do discurso de Björn Höcke, no verão de de 2016

Discurso realizado na cidade de Kyffhäuser. As transcrições originais do discurso, encontram-se na página da reportagem, em alemão, no site do jornal “Die Zeit”. Seguem abaixo, as traduções das partes do discurso, de acordo com o tempo original do vídeo localizado no YouTube. O discurso original se encontra aqui:

(05:30 – 05:40min). “O “Der Flügel” é uma garantia de que este partido sempre saberá e estará ciente de que se trata da última chance revolucionária para a nossa querida terra natal”.
(10:54 – 11:31min). “O Monumento “Kyffhäuser” foi construído das ruínas do palácio imperial, e quase 1000 anos se passaram. Uma caminhada por essas montanhas é uma caminhada através dos 1000 anos de história”.
(11:47 – 11:57min). “Na caverna da montanha de “Kyffhäuser”, dorme um Kaiser. E quando o perigo se tornar maior, ele levantará e restabelecerá o esplendor do império”.
(13:11 – 13:26min). “Tirar uma parte da energia dos mitos em tempos de mudança, sempre é útil e vivemos, sem dúvida nenhuma, um momento de mudanças”.
(13:36 – 13:41min). “Nós temos a tarefa de nos apossarmos novamente de nossa magnífica história”.
(14:07 – 14:26min). “Se conseguirmos novamente um sentimento, tornará acessível um novo mito para o nosso povo. Isso dependerá, se nós como AfD, alimentemos esse espírito na discussão política”.
(15:13 – 15:19min).“A constante indecência e ridicularização de nossa história, nos deixou sem raízes”.
(16:56 – 17:24min). “O nosso querido povo alemão, hoje é uma estupenda mistura de sociedade de diversão e uma comunidade endividada. O lidar com o passado tem sido uma longa atividade que paralisa a sociedade como um todo”.
(17:56 – 18:03min).  “Nós temos agora 70 anos de construção do monumento de “Kyffhäuser”. Finalmente, está na hora de estabelecermos monumentos mais uma vez”.
(20:22 – 20:29min).  “A inquietação do nosso Thymos se perdeu”. (Thymos, no conceito grego, é uma parte da alma e quer dizer vitalidade. Höcke quis se referir à coragem e fúria).
(20:30 – 21:02min). “Por isso nós estamos indefesos contra culturas e ideologias desconhecidas. Por isso dia a após dia, andamos de cabeça baixa por nosso país. Por isso, os estudantes alemães estão sendo intimidados em turmas multiculturalistas. Por isso nossas mulheres estão sendo tocadas de maneira imoral. E por isso, nossos jovens homens são agredidos em nosso próprio país e às vezes mortos sem motivos”.
(21:15 – 21:20min).  “Eu quero que nós ergamos nossas cabeças baixas”.
(21:28 – 21:42min).  “Eu quero que nós sigamos para o futuro, com os olhos abertos e reluzentes. E de coluna erguida, para que possamos elevar a nossa alma e vitalidade”.
(21:48 – 21:55min). “Este país, este povo, queridos amigos, precisa finalmente encontrar sua virilidade”.
(23:56 – 24:16min).  “A paciência do nosso povo acabou, e como já conheciam os romanos o lendário “Furor Teutonicus”, queridos amigos, não podemos nos deixar consumir. Nós demos início à mudança, nós queremos conseguir a mudança e nós seremos essa mudança”.
“Furor Teutonicus”: Refere-se à ferocidade, dos quais os povos germânicos ou teutônicos eram conhecidos pelos romanos.
(24:40 – 24:56min). “Eu sei que precisamos de nervos aço, pois a política dos velhos partidos, dia após dia, se torna insuportável. Os velhos partidos não estão apenas com conteúdos de estarrecer qualquer um, mas eles estão completamente degenerados”.
(28:04 – 28:20min). “Estamos vivendo um tempo de mudanças, vivemos o momento entre a vida e a morte, onde rapidamente, deslizamos. Quando nós nos tornarmos um partido forte em  Mecklenburg-Vorpommern
(28:33 – 29:07min). “Estou me divertindo com a queda dos velhos partidos (...) e é exatamente o que quero, ver a força dos burocratas da Alemanha, não chão!”
(33:40 – 34:03min). “Quando Heiko Maas, o incólume Ministro da Justiça da Alemanha, acusou nosso partido de “querermos uma outra Alemanha”, eu achei isso tão espontâneo como nenhuma outra declaração sua. Esse homem tem razão!”
(34:53 – 34:57min). “Sim, eu quero uma outra Alemanha!”

NOTAS DO TRADUTOR:

[1] Cidade do leste da Alemanha.
[2] Partido Alternative für Deutschland.
[3] Estado localizado no centro da Alemanha.
[4] Documento criado pelo AfD em 2015, onde os valores conservadores deverão ser fomentados e promovidos pelo partido.
[5] Movimento que se opõe à imigração muçulmana na Alemanha. Patriotische Europäer gegen die Islamisierung des  Abendlandes. “Europeus Patriotas contra a Islamização do Ocidente”.

[6] É uma associação de membros do AfD.De acordo com seu site, não é um órgão do partido. Site:   http://patriotischeplattform.de/
[7] Corrente do nacionalismo europeu que surgiu no final do século XX sob a influência de pensadores e ideólogos como: Robert  Steuckers, Gillaume Faye e Pierre Vial.
[8] Corporação tradicional estudantil alemã que segue princípios liberais e nacionalistas.
[9] Localiza-se na fronteira entre os Estados alemães de Thüringen e Sachsen-Anhalt. Onde está enterrado o Kaiser Wilhelm II.
[10] Antigo Estado da Pomerânia, localizado no região norte, perto de Hamburgo.

Tradução: Márcio Alexandre