O CONSENSO ANTI-WASHINGTON II - A QUINTA-COLUNA
 

 
“A batalha pelo futuro da América deve ser em casa, mais do que no Iraque, no Afeganistão ou nas cavernas do Al Qaeda. Antes de ganharmos corações e mentes árabes e muçulmanos, devemos lutar para ganhar os dos próprios americanos. Para confirmar, basta visitar uma de nossas Universidades”

Dennis Prager
Radialista e Jornalista em Los Angeles, CA

Em fevereiro de 1991, poucos dias antes da invasão terrestre do Iraque, eu me encontrava em Berkeley, Califórnia, com um grupo de pessoas ligadas à Universidade. Perguntaram-me a opinião no Brasil quanto à guerra do Golfo. Eu disse que só podia dar a minha, que era a de que, se fosse permitido a Saddam Hussein invadir o Kuwait impunemente, isto só aumentaria sua já enorme arrogância, pondo em risco os demais países da área, tal como acontecera com Hitler. Um dos presentes expressou a opinião, que depois percebi ser a de todos ali, de que as pessoas não estavam “sabendo pensar corretamente” – por isto o maciço apoio à guerra entre os americanos – como tinham sabido ao se opor à guerra do Vietnam. Fui envolvido numa discussão surrealista em que parecia que eu era americano e os demais – estes, sim, americanos – eram inimigos implacáveis dos Estados Unidos.

Encontravam-se os Estados Unidos no refluxo de uma onda de descrédito das instituições americanas e de suas forças armadas, quando, em virtude das políticas de Ronald Reagan, ambas haviam recobrado a importância e o orgulho no seio do povo. E este descrédito havia começado aonde? Nas Universidades, particularmente em Berkeley, com as campanhas incendiárias contra a guerra do Vietnam que deixaram o governo de então de mãos amarradas e as forças armadas mais fortes da história tendo que vergonhosamente se retirar, sofrendo seus integrantes a humilhação do desprezo em seu próprio País.

O ápice desta vergonha ocorreu no governo – ou seria desgoverno? – Carter quando este, traindo os compromissos com o Xá, entregara de mão beijada o Irã à fúria dos Aiatolás e, de quebra, a Nicarágua à ditadura sandinista. Naquele período os intelectuais, principalmente os liberals da Nova Inglaterra, se regozijavam com a atitude covarde e humilhante de Carter e seu gabinete. Imperava o lema first, blame America for all badness – culpe primeiro a América por todos os males.
Estes velhos tempos estão de volta após a onda de horror de 11 de setembro, quando até mesmo o Le Monde estampou a manchete em letras garrafais “We are all Americans!”. Se na Europa o ódio aos EUA transformou-se numa lucrativa indústria de livros, artigos e filmes, na América a situação não atingiu este ponto – mas não por culpa dos liberals tipo Chomsky, Sontag ou Gore Vidal, que tudo fazem para despertar o “pensamento correto” contra a administração atual. Após oito anos de Clinton, Bush já assumiu desmoralizado como o caipira – assim como Reagan tinha sido o cowboy. Não há nada que ele faça que não seja analisado por esta ótica. Com exceção de alguns poucos dias após o atentado de 11 de setembro, quando parecia haver uma unanimidade em torno da administração, o God bless America logo foi substituído pelo velho slogan blame America!, que só tinha ficado latente.

Espalhou-se uma idéia de que o terrorismo não é real, é apenas um truque do governo Bush para manter os americanos num estado de paranóia injustificável. Este estado seria mantido, inclusive com os alertas freqüentes de ameaças terroristas, apenas para justificar a agenda de Bush: o desprezo pelo meio ambiente, pelos pobres, da preferência pelos ricos – o que Thomas Sowell chamou de “advogados da inveja” – o assalto às liberdades civis e o ataque impune a países estrangeiros inocentes só para dominar jazidas de petróleo, e o apoio crescente ao “genocídio nazista” do Estado de Israel, numa espécie de eco Blame Israel! pelos atentados dos homens-bomba do inocente Arafat.

A rendição dos meios universitários ao terrorismo pode ser ilustrada pelo convite a Laura Whitehorn para se dirigir ao Departamento de Estudos Africanos e Afro-Americanos da Duke University. Laura Whitehorn é uma revolucionária “antiimperialista” que passou 14 anos na cadeia por colocar uma bomba no edifício do Congresso americano em 1983, ponto culminante de uma carreira terrorista impecável. Ela hoje está engajada para soltar todos os demais terroristas americanos presos. O cumprimento da pena não trouxe nenhum arrependimento, apenas solidificou suas idéias “revolucionárias” e antiamericanas. Um vídeo de 88 minutos sobre sua “saga” , “OUT: The Making of a Revolutionary”, foi lançado no San Francisco International Lesbian and Gay Festival.

O perigo real e imediato do terrorismo vem sendo não só minimizado como seus perpetradores glorificados. Osama Bin Laden tem sido descrito com tendo feito um grande bem aos americanos por ter mostrado sua arrogância. Tenta-se anestesiar a opinião pública dizendo que tudo não passa de fantasia paranóica e que basta os EUA mudarem sua política externa para uma “de cooperação com os outros povos” e nada vai acontecer. Não se trata mais de uma guerra fria, mas extremamente quente, que os israelenses conhecem muito bem e sabem que apaziguar de nada adianta - por isto Sharon será provavelmente re-eleito. Clinton, com o desmonte dos serviços de inteligência e sua política externa apaziguadora, só conseguiu uma trégua para os terroristas se armarem ainda mais, como é o caso da Coréia do Norte.

A quinta-coluna esquerdista americana insiste em negar o perigo atual, como já o fizera no passado, com a ameaça de espiões comunistas dentro dos EUA: só paranóia! Logo que os arquivos secretos soviéticos foram abertos verificou-se como estavam errados – ou mal intencionados. Existe uma vasta literatura que desvenda a verdade daqueles tempos - que certamente jamais será traduzida e editada entre nós - que mostra que o “diabólico” Joe McCarthy não sabia da missa a metade, e que mais atrapalhou do que ajudou com sua campanha histérica. Cito três obras extremamente esclarecedoras: Double Lives: Spies and Writers in the Secret Soviet War of Ideas Against the West, de Stephen Koch, Free Press, NY; Not Without Honor: The History of American Anticomunism, de Richard Gid Powers, Yale University Press, New Haven e We Now Know: Rethinking Cold War History, de John Lewis Gaddis, Clarendon Press, Oxford.

A história só se repete se quisermos – ou se não a conhecermos.
 

 
Heitor De Paola, publicado em www.offmídia.com, 22/01/2003