A atitude de Pardo Rueda parece indicar que sua campanha já está em “contatos políticos” com as FARC
*Coronel Luis Alberto Villamarín Pulido
Não havia transcorrido uma hora depois que a Corte Constitucional declarou inexeqüível a opção do referendo re-eleicionista, quando o candidato liberal Rafael Pardo Rueda expressou comentários que merecem análise e exames além da retórica eleitoreira, que se incrementa em períodos como o atual.
Pardo Rueda asseverou que “salvou a democracia” e que “a Colômbia deve acabar a polarização e o capítulo de guerra”. Suas frases não deixariam de ser demagógicas e oportunistas, se não coincidissem com outros fatos dignos de revisar.
Não é gratuito que Piedad Córdoba, cujo posicionamento excessivamente ausente no Congresso supera amplamente a muitos de seus colegas por estar convertida na porta-voz oficial de Alfonso Cano, tenha contado com o aval de César Gaviria e Rafael Pardo, para voltar a representar o Partido Liberal no Congresso, com número preferencial no ticket de votação.
Tampouco é gratuito que a mesma senadora, em sua costumeira linguagem incendiária e vinte-juliana [1], tenha endossado a sinistralidade fariana e a alcagüetagem de “colombianos pela paz” para não libertar os seqüestrados, o governo nacional, por ter advertido a opinião pública e o país de que por trás da farsa conjunta de Lula e dos demais cúmplices das FARC, há um perverso matiz eleitoreiro.
Ante as perguntas incisivas de Claudia Gurisatti, Pardo Rueda gaguejou e inclusive respondeu da mesma maneira que faz Samuel Moreno Rojas, quando se lhe pergunta se as FARC são terroristas: com meias tintas e panos mornos.
Não há nada de excepcional que as FARC, por meio de Piedad Córdoba e dos “libertados” que agora fazem campanha para o Senado, para conseguir a lei de permuta permanente e posterior legitimação dos bandidos, a mesma que os terroristas lhes ordenaram durante o cativeiro e que, ademais, lhes impuseram como tarefa em troca de libertá-los, em seu afã de recuperar o poder para voltar a situar seus quadros na burocracia colombiana, os hierarcas do partido Liberal estejam gestando uma trama igual à que levou Andrés Pastrana à imerecida presidência (1998-2002).
São muito altas as possibilidades de que esta engrenagem tenha arrancado. Em que pese sua inaptidão funcional no Ministério da Defesa, cuja passagem foi medíocre, Pardo Rueda está auto-convencido e a isso o ajudam jornalistas insensatos, de que foi ele quem conseguiu a rendição do M-19 e a entrega dos terroristas que agora são ex-ministros, governadores e até candidatos presidenciais.
Não é segredo para ninguém que Pardo Rueda é um curinga de César Gaviria, que está empenhado em pavimentar o caminho para a futura presidência de seu delfim Simón e que, finalmente, como bons politiqueiros demagogos, herdeiros das tramas próprias de López Michelsen, ambos são capazes de fazer pactos com quem quer que seja ou como se diz de maneira coloquial: “de vender sua alma ao diabo”...
Se for assim, mais uma vez as FARC demonstrariam a agudeza perceptiva de Cano e a habilidade de seus cúmplices para enganar a Colômbia.
As frases de Pardo Rueda não foram ditas de maneira espontânea. Pareciam preparadas com muita antecedência.
Além disso, porque numa lógica saudável, pode-se esperar qualquer coisa do binômio Gaviria-Pardo Rueda, principais responsáveis pela vergonhosa fuga de Pablo Escobar do hotel cinco estrelas chamado, ao que se diz, “Cárcere da Catedral”, e da não menos vergonhosa aliança posterior “dos pepes” com o bloco de busca para localizar e dar baixa ao mesmo capo.
Quando o rio soa, pedras leva... E oxalá que esse não seja o tira-gosto de outra palhaçada como a de Pastrana no Caguán, quando se iniciaram os diálogos sem plano estratégico de paz, e retornou-se à guerra sem um plano coerente de guerra.
Há outra coincidência, porém: Pardo Rueda entrou no Ministério da Defesa sem saber nada de segurança nacional nem de estratégia. E saiu dali igual ou pior que ignorante acerca destes temas. A advertência está dada. Que não vá se grudar à presidência para que a Colômbia padeça a reedição de outro Belisario, outro Barco, outro Samper, outro Gaviria ou outro Pastrana. Seria vergonhoso para a história e os eleitores colombianos não teríamos perdão.
[1] “Vinte-juliano” é uma expressão popular que refere-se ao 20 de julho de 1810, quando se deu o grito de independência. Usa-se para assinalar discursos inflamados ou exagerados.
* Analista de assuntos estratégicos - www.luisvillamarin.com
Tradução: Graça Salgueiro