OS RISCOS DO TRATAMENTO DE DÉFICIT DE ATENÇÃO/HIPERATIVIDADE (ADHD) COM METILFENIDATO (RITALINA)

 

OS RISCOS DO TRATAMENTO DE DÉFICIT DE ATENÇÃO/HIPERATIVIDADE (ADHD) COM METILFENIDATO (RITALINA)

 

Peter R. Breggin, M.D. & Ginger Ross Breggin


Poucos profissionais de saúde mental são capazes de saber de cor os critérios diagnósticos assim delineados no Manual Estatístico de Perturbações Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders-lV (DSM-IV) da American Psychiatric Association, 1994), até mesmo para uso de rotina, embora os padrões diagnósticos sejam importantes para estabelecer as tendências clínicas e de pesquisa. A existência do DSM cria uma forte impressão de validação, embora potencialmente ilusória, dos diagnósticos psiquiátricos em geral e também para o diagnóstico dos indivíduos em categorias. A prescrição de medicamentos para as crianças, por exemplo, é amplamente justificada com base nestes diagnósticos.

A existência de diagnósticos também influencia a visão que os pais e professores têm das crianças sob seus cuidados. Muitos professores e pais ouviram falar de “hiperatividade” e mais especificamente de déficit de atenção/hiperatividade. Muitos profissionais não especializados em saúde mental acreditam que podem fazer este diagnóstico.

OS COMPORTAMENTOS INADEQUADOS E A FALTA DE DISCIPLINA (disruptive behavior disorders - DBDs)

A ADHD foi originalmente considerada juntamente com os comportamentos desafiantes e de oposição, no DSM-III-R (1987), mas já no DSM-IV foi feita uma tentativa para separar ambas, ao menos quando a ADHD se manifesta inicialmente por falta de atenção e não hiperatividade. O Comitê que elabora os DSM achara que os maus comportamentos e problemas da atenção “freqüentemente ocorrem juntos”, “algumas” crianças com ADHD não são hiperativas e nem se comportam inadequadamente (Fasnacht, 1993).

Apesar das tentativas de separá-las, os três diagnósticos (comportamento inadequado, hiperatividade e déficit de atenção) geralmente se sobrepõem. O DSM-IV observa que “uma porção importante das crianças indicadas para os clínicos como portadoras de ADHD também apresentam comportamentos desafiantes (Oppositional Defiant Disorder) ou distúrbios de conduta (Conduct Disorder). Um estudo do Instituo Nacional de Saúde Mental (National Institute of Mental Health - NIMH) igualmente confirma que distúrbios de conduta “puros” ou comportamentos desafiantes “puros” são relativamente raros na clínica, com muitos casos também qualificados como déficit de atenção (Kruesi et al., 1992).

O DSM-IV não discute a definição de comportamento inadequado (Disruptive Behavior Disorder - DBD). Já o DSM-III-R assume que as crianças com DBD são “caracterizadas por comportamentos socialmente inadequados e freqüentemente mais aflitivos para os demais”. A “doença” consiste em inadequação agressiva à vida dos adultos – uma definição que veste como uma luva para o controle social.

DÉFICIT DE ATENÇÃO/HIPERATIVIDADE (ADHD)

O DSM-IV distingue entre dois tipos de ADHD, o primeiro caracterizado principalmente por desatenção e o segundo por impulsividade-hiperatividade. O critério oficia para caracterizar ADHD requer a identificação de seis entre nove sub-critérios para cada categoria. Para hiperatividade-impulsividade os primeiros quatro itens, em ordem decrescente de importância são:

1. freqüente nervosismo e inquietação com as mãos ou os pés e contorções quando sentado
2. freqüentemente se levantam em salas de aula ou em outras situações nas quais se espera que fique sentado
3. correm e sobem em móveis em situações nas quais este comportamento é inapropriado (em adolescente ou adultos podem se limitar a sentimentos subjetivos e inquietação)
4. apresentam dificuldades em brincar ou se engajar quietos em atividades de repouso

Os primeiros quatro critérios para diagnosticar a forma de desatenção incluem:

1. não conseguem permanecer atentos a detalhes ou cometem erros nos deveres de casa, ou permanecem desatentos em outras atividades
2. têm dificuldade em permanecer atento em quaisquer tarefas ou brincadeiras
3. freqüentemente parecem não escutar quando alguém se dirige a eles diretamente
4. não obedece às instruções e não consegue terminar os deveres de casa, as tarefas ou deveres no local de trabalho (devido a comportamento opositor ou falha de entendimento das instruções)

Aqueles que advogam a medicação para crianças geralmente vêm a ADH como uma “doença mental” específica de causa genética e bioquímica. Mas como a lista de critérios demonstra, é outra maneira de DBD a maneira pela qual uma criança é rotulada, o que leva a mesma à frustração e perturbação. Isto é verdade até mesmo no que se refere a certos critérios para o tipo desatento. Como Gerald Golden (1991) observou: “O comportamento é visto como perturbado e inaceitável para pais e professores e a criança fica socialmente incapacitada como resultado do próprio diagnóstico”.

Russell Barkley (1991, p. 13) declara: “Apesar da desatenção, hiperatividade e baixa capacidade de controle dos impulsos serem citados por outros como uma criança primariamente hiperativa, meu próprio trabalho com essas crianças sugere que a desobediência também é um fenômeno primário”. Não é surpreendente que algumas crianças desobedecem a Barkley. Ele não apenas quer medicá-las como também as culpa pelos conflitos com a família e a escola. Como ele diz “...há, de fato, algo “errado” com essas crianças”. Ele não acusa igualmente as autoridades na vida da criança, como pais ou professores embora eles tenham maior controle sobre as condições que determinam a vida e a condição mental da criança.

UMA DOENÇA QUE SOME COM ATENÇÃO

Os sintomas e manifestações da ADHD geralmente desaparecem quando a criança tem algo do seu interesse, para fazer ou quando os adultos lhe dão um mínimo de atenção. Muitos, senão todos, observadores refletiram sobre o DSM-II-R e no DSM-IV. O último especifica que os sintomas aparecem quando a criança se encontra em ambientes nos quais “falta apelo à sua atenção ou alguma novidade”, e podem estar ausentes ou mínimos quando “está sob controle, ou numa situação nova, ou se engaja numa atividade especialmente interessante, ou numa situação tête-à-tête, incluindo quando está sendo examinada pelo médico”. Muitos que advogam pelo diagnóstico de ADHD também notaram que os sintomas tendem a desaparecer durante as férias de verão.

QUEM TEM O PROBLEMA

 
Se a lista de critérios de ADHD é de alguma utilidade ela identifica as crianças que estão entediadas, ansiosas ou irritadas com alguns adultos de sua vida ou em instituições dirigidas por adultos, como a escola e a família. A presença destes “sintomas” não deve apontar estas crianças como mentalmente doentes, mas sim os adultos como não percebendo que devem fazer novos esforços para atender as necessidades das mesmas.

Quando uma criança pequena, lá pelos cinco ou seis anos, se tornar persistentemente desrespeitosa, há sempre uma pressão para vê-la como descontrolada ou com pouco controle sobre seus impulsos. Algumas vezes a criança não está sendo respeitada porque as crianças aprendem mais através de exemplos do que por qualquer outra coisa. Quando tratadas com respeito tendem a responder respeitosamente, quando amadas tendem a ser amáveis.

A fonte da angústia da criança pode ser mais complicada do que esta. Talvez os pais estejam com mais medo ou distraídos para discipliná-la racionalmente e deixam a criança correr solta ou talvez a criança esteja sofrendo abusos fora de casa. A causa sempre está no mundo externo. Crianças não desenvolvem por si mesmas, conflitos emocionais internos ou com os adultos que a cercam.

As crianças não ficam entediadas, desatentas, indisciplinadas, ressentidas ou violentas por sua própria natureza. Estigmatizá-las como ADHD implica em que sejam. Estas crianças são usualmente mais cheias de energia e mais espirituosas ou necessitam de um ambiente interessante do que seus pais e professores não puderam criar. Um dos primeiros a defender a hiperatividade como diagnóstico (Weeder, 1973) as descreve como possuindo extraordinárias fontes de energia. No entanto, estas podem ser diagnosticadas como doenças mentais, um rótulo que as acompanhará pela vida afora, arruinando seu futuro.

DÉFICIT DA ATENÇÃO DOS PAIS (Dad attention deficiency disorder - DADD)

Na minha experiência clínica, muitas crianças diagnosticadas como ADHD não recebem atenção suficiente dos pais do sexo masculino que estão separados da família e muito preocupados com seu trabalho e outras coisas, ou com inabilidade para a paternidade. Em muitos casos o diagnóstico apropriado é DADD (Breggin, 1991).

A “cura” para essas crianças é uma atenção mais amorosa e racional por parte do pai. Os jovens estão hoje em dia sedentos de atenção por parte de seus pais, atenção que pode vir de qualquer adulto do sexo masculino. Igualmente grupos de crianças hostis e impulsivas se acalmam quando um homem adulto firme, tranqüilo e cuidadoso estiver por perto. A Arlington High School, em Indianapolis, estava cancelando muitos eventos depois das atividades escolares por causa da desobediência quando o pai de apenas um deles estava presente (Smith, 1993): “Numa tarde ocorreu uma inquietação esquisita do lado dos pais do auditório. Quando ele disse para se acalmarem alguns alunos o secundaram. Um deles disse: Este é o pai da Lena. Vocês o ouviram. Fiquem quietos e ajam com calma”.

Desde então a escola começou a buscar pais voluntários para esses eventos. Outras vezes a perturbação infantil (ADHD) pode ser chamada de Déficit de Atenção dos Professores (Teacher Attention Deficit Disorder – TADD) derivada mais dos problemas de nosso sistema educacional do que dos professores, poucos estudantes recebem a atenção individualizada de que necessitam.

DESCRÉDITO PROFISSIONAL


Em 1993 o neurologista Fred Baughman, Jr. percebeu que os estudos não confirmaram de forma definitiva qualquer melhora das crianças sob tratamento com drogas. Baughman estima que a freqüência de ADD varia de 1/3 a 1/1000. E pergunta: “Aos olhos do observador será mesmo Distúrbio do Déficit de Atenção?”

O tema dos olhos do observador levou Diane McGuinness a ridicularizar ADHD como as “roupas novas do Imperador”. De acordo com ela num capítulo de The Limits of Biological Treatments for Psychological Distress (1989): “Nos últimos 25 anos fomos levados a um fenômeno raro na história. Pesquisas metodológicas rigorosas indicam que a síndrome de Distúrbio do Déficit de Atenção e Hiperatividade simplesmente não existe. Inventamos uma doença, a sancionamos e agora devemos desmenti-la. O maior problema é saber como vamos matar o monstro que nós criamos. Não é fácil fazer isto sem nos desmoralizarmos”. De acordo com Richard E. Vatz (1993), “ADD não é mais doença do que “excitabilidade. É um termo psiquiátrico, pseudo-médico”.

Frank Putnam (1990), diretor de uma das unidades de pesquisa do National Institute of Mental Health (NIMH), recentemente apoiou “o grande número de clínicos e pesquisadores que condenam a tirania de nossos sistemas classificatórios psiquiátricos e educacionais”. Putnam acha que é extremamente difícil fazer classificações válidas para crianças e, apesar disto, “as crianças são de longe o grupo mais classificado e rotulado de nossa sociedade”. Ele adverte contra “as prescrições institucionais de um sistema que procura enquadrar as crianças em categorias diagnósticas”.

UMA BASE FÍSICA DO ADHD?

Um estudo no NIDH (National Institute of Mental Health) dirigido por Alan Zametkin (Zametkin et. AL., 1990) recebeu uma grande publicidade por ter encontrado um aumento do metabolismo da emissão de pósitrons no cérebro através da tomografia (PET scans) de adultos com história de ADHD na infância. No entanto quando os sexos eram comparados separadamente não havia diferença estatística significativa entre os adultos-controle. Para conseguir algum significado os dados eram agrupados de forma a incluir um número desproporcional de mulheres. Quando as áreas do cérebro eram comparadas entre controles não se encontrava nenhuma diferença. É sempre possível manipular os dados para produzir um resultado estatístico desejado. O estudo de Zametkin é uma ilustração clássica de manipulação.

Como a ADHD não é uma doença, mas a manifestação de um conflito, duvidamos que venha a ser encontrada alguma causa biológica. Golden (1991) disse simplesmente: “Tentativas de definir a base biológica da ADHD têm sido sucessivamente infrutíferas. A neuro-anatomia do cérebro, tal como demonstrada pelos estudos de neuro-imagens, é normal. Nenhum substrato neuropatológico foi desmonstrado...” (p. 36). Enquanto isto a ênfase nas possíveis causas genéticas ou biológicas de comportamentos angustiados das crianças, obscurece o crescente acúmulo de pesquisas que confirmam sua origem psicossocial (revisto em Green, 1989 Breggin, 1992).

A DROGA NÃO É ESPECÍFICA PARA ADHD

Estudiosos contemporâneos concordam que o metilfenidato afeta todas as crianças da mesma forma, não havendo nenhuma especificidade com crianças diagnosticadas com ADHD. Golden (1991) observou: “...a resposta à droga não pode ser critério de validação do diagnóstico. Garotos normais mostram mudanças similares àqueles com diagnóstico de ADHD quando tomam uma única dose de psicoestimulante” (p. 37). Uma hora após ingerir uma dose qualquer criança tende a se tornar mais obediente, mais limitado, mais interessado em se concentrar em instruções e tarefas monótonas. Os casais em conflito com um filho podem lhe dar uma pílula, sabendo que, em pouco tempo, ele se tornará mais dócil.

É considerado comumente que, quando comparados com adultos, os estimulantes têm um efeito paradoxal nas crianças, mas isto possivelmente é falso. Com as doses geralmente prescritas tanto crianças como adultos se tornam mais “distantes” (spaced out), mais afastadas de seus reais sentimentos e, por conseguinte, mais desejosas de se concentrar em tarefas chatas e repetitivas na sala de aula. Em doses maiores, crianças e adultos se tornam mais excitados e hiperativos. Há, no entanto, grande variação entre os indivíduos e algumas crianças e adultos se tornam hiperativos e desatentos com doses menores também.

Os britânicos são muito mais cautelosos quanto ao uso de estimulantes para crianças. Grahame-Smith & Aronson (1992), autores do The Oxford Textbook of Clinical Psychopharmacology and Drug Therapy, sugerem que os estimulantes podem agir nas crianças da mesma maneira que nos ratos, “induzindo comportamentos estereotipados, isto é, reduzindo a variedade de respostas comportamentais...” (p. 141). O comportamento estereotipado é uma atividade simples, repetitiva e sem sentido geralmente observada em indivíduos com danos cerebrais. O referido Textbook afirma, sugestivamente: “Está além do nosso alcance discutir se o controle comportamental é ou não desejável” (p.141).

PSIQUIATRIA TÓXICA

Uma maneira de entender o efeito rotineiro de qualquer droga psiquiátrica é observar seus efeitos extremos ou tóxicos (Breggin, 1991). O efeito clínico ou “terapêutico” geralmente é uma expressão menos intensa do efeito tóxico. Ao discutir a “toxicidade cognitiva” James M. Swanson (1992) e co-autores sumariaram a literatura:

“Em algumas crianças perturbadas o comportamento submisso induzido por drogas pode ser acompanhado de isolamento, fechamento em si mesmo e concentração excessiva. Algumas crianças medicadas podem parecer “zumbis” e altas doses, que tornam crianças diagnosticas com ADHD mais melancólicos, quietos e “tranquilos” podem produzir isolamento social por aumentar o tempo em que preferem ficar a só consigo mesmos e diminuem a qualidade e o tempo de interação positiva no playground!”.

Enquanto isto como Swanson et al. (1992) confirmaram, não há evidência de que  o metilfenidato melhora o aprendizado ou a performance acadêmica. Estas conclusões foram confirmadas por várias revisões: (Breggin (1991) Coles (1987) McGuinness (1989) and Swanson et al. (1992). O National Institute of Mental Health (NIMH) declarou sucintamente: “Os efeitos de longo prazo dos estimulantes permanece dúbio”. A informação aprovada pelo FDA (Food and Drug Administration) escondida pela Ciba-Geigy, admite que “Os efeitos benéficos de longo prazo do emprego de Ritalina em crianças não foi ainda confirmado” (Physicians” Desk Reference, 1994, p. 836). Mesmo assim, os tratamentos de longo prazo com metilfenidato continuam sendo defendidos.

O NIHM ainda mostra que alguns estudos demonstraram que tratamentos de curto prazo reduzem as “perturbações nas salas de aula” e incrementam “submissão e atenção”. Mas reconhece que as drogas parecem ser “menos confiáveis em melhorar comportamentos de natureza persistente em  casos de problemas sócio-emocionais e acadêmicos, tais como conduta antissocial, relações difíceis com os colegas e professores e desempenho escolar”. Mesmo estimando que “....2 a 3% de todas as crianças na escola elementar recebem intervenção farmacológica para hiperatividade (p. 3) o NIMH continua encorajando o uso de metilfenidato em números crescentes de crianças.

METILFENIDATO E COCAÍNA

Os pais raramente são informados de que o metilfenidato é “acelerador” – isto é, está farmacologicamente classificado no mesmo grupo das anfetaminas e causam os mesmos efeitos, os mesmos efeitos secundários e os mesmos riscos. No entanto, isto é bem conhecido entre os médicos. Por exemplo, o Treatments of Psychiatric Disorders observa que cocaína, anfetaminas e metilfenidato são “neurofarmacologicamente idênticos” (American Psychiatric Association 1989, p. 1221). Como evidência o documento afirma que os padrões de “overdose” são os mesmos para as três drogas e os efeitos clínicos só podem ser diferenciados em testes de laboratório e são intercambiáveis, isto é, causam os mesmos efeitos se substituírem umas às outras em animais viciados (American Psychiatric Association, 1989, p.1221. Ver também Breggin, 1991, e Breggin & Breggin, 1994a&b).

O DSM-IV confirma estas observações ao agregar o abuso e a adição de cocaína, anfetamina e metilfenidato na mesma categoria. A FDA classifica o metilfenidato na categoria de altamente viciante na Tabela II que ainda inclui anfetaminas, morfina, ópio e barbitúricos (Goodman et al., 1991).

Antes de ser substituído por outros estimulantes na década de 1980 o metilfenidato era uma das mais comuns drogas ilícitas (Spotts and Spotts, 1980). Em Bethesda jovens vendem suas receitas de metilfenidato para seus colegas as usarem ilicitamente como estimulantes. A Fluoxetina (Prozac), por seus efeitos estimulantes também tem sido usada ilicitamente [Breggin, 1994]). Trabalhando com grupos comunitários frequentemente ouvimos a piada sobre indivíduos que “se graduaram usando medicamentos sob prescrição e “progrediram” para o álcool ou drogas pesadas”. Um dos autores (P.B.) já viu alguns casos em sua prática privada.

Como todo estimulante que provoca adição o metilfenidato pode causar sintomas de distanciamento afetivo tais como depressão, exaustão, retraimento, irritabilidade e desejos suicidas. Os pais não conseguem reconhecer uma reação de retraimento quando seu filho deixa de tomar uma dose que seja. Pelo contrário, pensarão que a criança precisa voltar a tomar a medicação.

(Reações adversas ao metilfenidato são provavelmente muito mais comuns do que está sugerido na literatura [Breggin, 1991]. Excetuando-se as novas drogas os médicos quase nunca relatam ou publicam efeitos secundários negativos. Muitos médicos desconhecem que existe um mecanismo para informar os laboratórios e ao FDA. Goodman et al. [1991. p. 78] observam que “mais de 40% dos médicos não sabem que o FDA tem um sistema de informações para reações adversas a drogas...”. Além disto, os defensores do uso de drogas psiquiátricas em crianças mostram má vontade em enfatizar seus efeitos perigosos [Breggin, 1991]). (Estas informações foram originalmente publicadas no The Journal of College Student Psychotherapy, Vol. 10(2) 1995, pp. 55-72).

OUTROS FATOS ESCAMOTEADOS AOS PAIS

Os casais não são informados que o metilfenidato, como estimulante, pode causar exatamente os distúrbios que supostamente curariam – desatenção, hiperatividade e agressão. Quando a criança piora durante o uso da medicação, são aumentadas as doses ou até mesmo a medicação é trocada por outra, mais forte, como os neurolépticos Tioridazina (Melleril) ou Haloperidol (Haldol), resultando num círculo vicioso que incrementa a toxicidade da Ritalina (efeitos secundários do metilfenidato são melhor discutidos em Breggin, 1991).

Raramente os pais são informados que a Ritalina pode causar tiques que desfiguram a pessoa. Um de nós (PB) recebeu um rapaz no qual a dose de rotina produziu espasmos musculares desfigurantes e tiques da cabeça, pescoço, face, olhos e boca. Algumas vezes os pais são avisados de que a Ritalina pode paralisar o crescimento (altura e peso), mas a explicação usualmente é dada num tom calculado para não assustá-los. Muito do crescimento cerebral tem lugar durante os anos nos quais as crianças começam a usar a droga, mas os médicos não dizem aos pais que não existem estudos sobre os efeitos inibidores do próprio cérebro. Se a criança tem um corpo pequeno, incluindo a cabeça, o que se passará com o que está dentro do crânio? E se o tamanho pode ser reduzido, não haverá deformidades cerebrais mais sutis e tão pequenas que podem passar despercebidas?

Com menos frequência os pais são informados de que, como qualquer tipo de “acelerador”, o metilfenidato pode tornar a criança mais ansiosa e causar comportamentos que parecem “loucos”. Mais certamente, os pais não são informados sobre algum dano cerebral permanente por um uso por tempo muito longo de Ritalina. Embora nenhuma anormalidade cerebral tenha sido encontrada em crianças rotuladas como ADHD, ao menos um estudo encontrou encolhimento cerebral em adultos assim rotulados que tomaram Ritalina por vários anos (Nashrallah et al., 1986). Os autores do estudo sugeriram que a “atrofia cortical pode ser um efeito secundário do tratamento com metilfenidato”.

Finalmente, os pais não recebem nenhuma informação de que existem outros métodos não medicamentosos e mais garantidos para ajudar as crianças com DBD (disruptive behavior disorders) através de escolas mais interessantes e relações familiares mais amorosas.

A ADHD É UMA DOENÇA AMERICANA? UMA DOENÇAS PREDOMINANTEMENTE DAS CRIANÇAS DO SEXO MASCULINO?

A ADHD é raramente diagnosticada em países que se preocupam mais com as crianças, como Dinamarca, Noruega e Suécia, onde drogas de qualquer tipo são raramente prescritas para as crianças. Um médico trabalhando no National Health Service inglês não está autorizado a prescrever Ritalina na sua prática de rotina porque esta não está na lista de drogas aprovadas. Pode até prescrever anfetaminas, que tem efeitos similares, mas esta prática é desencorajada e muito rara.

Meninos são mais frequentemente diagnosticados com DBD (disruptive behavior disorders) do que as meninas. De acordo com o DSM-IV a ADHD ocorre em meninos 4 a 9 vezes mais que em meninas e os distúrbios de conduta são “muito mais comuns em homens”, 6 a 16%. Além de se sentirem chateados ou aborrecidos com os adultos, por que os meninos tendem a reagir de maneira ressentida e rebelde contra a autoridade de suas mães ou professoras? A resposta mais simples é de que eles são educados desta maneira em relação às mulheres em geral. De fato, no mundo atual, mais homens adultos se ressentem de ser conduzidos por mulheres.

Porém, há uma multiplicidade de fatores que contribuem para os conflitos e confusão em meninos pequenos: eles são educados para suprimir suas tendências ternas (“femininas”) e encorajados a serem competitivos, dominadores e hostis em relação às mulheres. Muitos desses valores são oriundos da mídia de entretenimento e TV e reforçados nos esportes e no playground, tanto quanto na família e praticamente em toda a sociedade. Na nossa sociedade moderna, nas quais as meninas recebem cada vez mais mensagens confusas sobre auto-afirmação, mais e mais as meninas também passaram a ser diagnosticadas como DBD. Geralmente são as meninas mais sagazes e perspicazes.

A ORGANIZAÇÃO CH.A.D.D.

Fundada em 1987 a Children with Attention Deficit Disorders (CH.A.D.D.) é uma organização de pais que possuem filhos rotulados como crianças com Distúrbio do Déficit de Atenção. A política oficial da CH.A.D.D. é ver estas crianças como sofrendo de problemas biológicos e genéticos. Nas palavras da sua (então) Presidente Sandra F. Thomas (1992): “Nossas crianças têm um defeito neurológico que é dominante e afeta todas as áreas de sua vida, dia e noite”. Os líderes da CH.A.D.D. afirmam que os distúrbios emocionais não são causados por conflitos familiares, falta de cuidados familiares adequados, escolas inadequadas ou fatores sociais estressantes. Numa brochura recente, “Hyperactive? Inattentive? Impulsive?”, anunciam: “Lidar com culpa parental, não, não é em absoluto por nossa culpa”. Depois de afirmar que ADHD é um distúrbio neurológico, seguem explicando: “Pais e mães frustrados, perturbados e ansiosos não causam ADD nos seus filhos. Pelo contrário, crianças com ADD geralmente causam frustração, angústia e ansiedade nos seus pais” (p. 1). Não há melhor exemplo de culpar a criança e vitimar os pais.

CH.A.D.D. seguiu o modelo de sua contraparte adulta, a National Alliance for the Mentally Ill (NAMI) (Breggin, 1991). Aqueles pais criaram filhos com sérios problemas emocionais e defendem as explicações genéticas e biológicas e promovem medicamentos bioquímicos, eletrochoques, psico-cirurgia e tratamentos compulsórios. NAMI também tenta suprimir quaisquer ideias divergentes, atacando profissionais que discordam deles (Breggin, 1991). Agora NAMI criou uma afilhada: NAMI-CAN-the National Alliance for the Mentally Ill Child and Adolescent Network (Armstrong, 1993) que tal como a CH.A.D.D. acredita em  doenças biológicas do cérebro (biologically based brain diseases (BBBD).

FONTES DE PODER

Os membros da CH.A.D.D. e da NAMI conseguiram enorme influência entre profissionais organicistas, organizações nacionais de saúde mental, e na indústria farmacêutica. Mas de onde vem o dinheiro para sustentar lobistas de alta posição, campanhas na mídia e convenções nacionais de alto luxo em hotéis como o Chicago Hyatt Regency? Ora, o programa da convenção "Pathways to Progress" (CH.A.D.D., 1992) diz: “CH.A.D.D. agradece a generosa contribuição para um programa educacional de apoio aos nossos projetos da CIBA-Geigy Corporation". Não por coincidência a CIBA-Geigy é a fabricante de Ritalina, o estimulante que tem a parte do leão no mercado de ADHD. A contraparte adulta da CH.A.A.D., NAMI, tem igual sucesso em seus esforços políticos. Está intimamente alinhada com a psiquiatria organicista e recebe muito dinheiro dos laboratórios farmacêuticos.


RECONHECENDO ADHD

Recentemente a CH.A.D.D. editou um Manual Educacional com a colaboração de alguns profissionais, incluindo Russell Barkley (Mary Fowler, 1992), onde torna claro que a intenção de diagnosticar e drogar crianças que não aceitam disciplina estrita:

"O Distúrbio do Déficit de Atenção (ADD) é uma deficiência oculta. Não existem marcas físicas para identificar sua presença, no entanto não é tão difícil descobri-la. Enxerguem com seus olhos, escutem com seus ouvidos quando passarem por locais onde estão as crianças – principalmente aqueles lugares onde se espera que as crianças se comportem de uma maneira quieta, ordeira e produtiva. Nesses lugares crianças com ADD se mostrarão rapidamente. Elas estarão fazendo, ou não fazendo, algo que frequentemente resulta em receberem uma barragem de comentários e críticas, tais como ‘Por que você nunca escuta?’, ‘Pensa antes de agir’, ‘Preste atenção’.”

COMO ESTRELAS BRILHANTES

Nossos filhos se relacionam conosco em casa ou através da escola. Em ambos devemos nos devotar às suas necessidades básicas e não tratar supostos distúrbios psiquiátricos. Acima de tudo, nossos filhos precisam de nosso carinho, dos adultos de suas vidas. Isto está agora sendo feito em alguns sistemas escolares que começam a abandonar aparatos de tamanho quase-industriais do passado e favorecem o velho "small is beautiful”. Há muitas vantagens em escolas pequenas, mas talvez a mais significativa seja que elas permitem aos professores conhecer melhor seus alunos e, entendendo-os melhor, satisfazer suas necessidades educacionais e emocionais. Ao mesmo tempo, as escolas e classes pequenas permitem aos professores satisfazer também suas próprias necessidades que os ajude a desfrutar uma efetiva identidade profissional. Conflitos podem ser mais bem resolvidos como deveriam ser – através de soluções mutuamente satisfatórias – ao invés de diagnósticos médicos e supressão farmacológica.

Algumas escolas de menor tamanho e mais orientadas para a criança têm demonstrado que DBD virtualmente desapareceu. Não há evidência melhor para comprovar como o ambiente pode reformular o comportamento em crianças anteriormente diagnosticadas psiquiatricamente.

Numa reportagem de 14 de julho de 1993 do New York Times intitulada "Is Small Better? Educators Now Say Yes for High School”, Susan Chira relata: “Estudantes de escolas limitadas a 400 alunos apresentam menos problemas de comportamento, os alunos são mais bem atendidos e muitas vezes conseguem melhores notas e recordes. Mesmo as crianças com menos apoio de suas famílias podem formar melhores relações com os professores” (p. 1). Os professores têm a oportunidade de “construir laços vitais durante os conturbados anos da adolescência”. Mesmo alunos que vêm de famílias perturbadas respondem bem em escolas menores e com melhores cuidados. “Se tornam estrelas que brilham”, disse a estudante Joy Grimage. “Elas não vão derruba-lo ou coloca-lo em posição sem saída”. As crianças reagem tão rapidamente às melhoras de relacionamento proporcionadas pelos adultos que muitas podem ser ajudadas sem nenhum vínculo profissional externo. Os consultores podem contatar a família, os professores ou outros adultos.

Muitos psicoterapeutas, por exemplo, praticam rotineiramente a “terapia infantil” sem jamais terem contato com a criança, ajudando os adultos que a cuidam a se tornarem pais mais amorosos e disciplinados através de trabalho de rotina de psicoterapia, indiretamente transformando a vida de seus filhos. As crianças “melhoram” imperceptivelmente. Esses terapeutas, muitos dos quais trabalham somente com os adultos, podem não se identificar profissionalmente como psiquiatras ou terapeutas infantis, mas fazem um bem maior às crianças do que profissionais que fazem diagnósticos e as medicam.

As crianças raramente têm perturbações, elas vivem num mundo perturbado. Quando os adultos melhoram o ambiente em que elas vivem, elas tendem a melhorar sua visão de mundo e comportamento. Porém crianças e adolescentes podem eventualmente se tornar tão angustiados, confusos e autodestrutivos que ou internalizam a culpa ou se tornam compulsivamente rebeldes. Podem precisar da intervenção de um terapeuta que seja capaz de entender seus sofrimentos e sua raiva para ajuda-los a supera-los. Muitas vezes essas crianças podem se beneficiar aprendendo como lidar melhor com as situações conflituosas. Mas jamais devem ser levadas a crer que estão doentes ou com defeitos orgânicos como causa de seus conflitos. As crianças podem se beneficiar por aprender a se responsabilizar por sua conduta, mas nada ganham por serem acusadas de culpadas pelos traumas e stress às quais estão expostas. Precisam ser ajudadas a ter força, não humilhadas por diagnósticos psiquiátricos e drogas que atacam sua mente. Principalmente, elas são bem sucedidas quando os adultos se mostram interessados e atenciosos com suas necessidades básicas.

 
Tradução: HEITOR DE PAOLA